Lápis de Cor

Palapissso diante livraria e olho para a vitrine com aquela mirada viciada dos amantes de livros. Não importa quantas vezes eu passe diante dela na semana, meus olhos sempre vão escorregar na direção dos títulos, como se eles tivessem ímã. Já é automático. Espero ver, sempre, algum título que tenha escapado, uma capa daquelas que fazem a gente viajar sem ao menos adivinhar do que se trata o conteúdo, sem saber se o texto é minimamente bom. Já entrei em muita furada por causa de capa bonita e título sedutor, mas por mais furada que fosse a leitura, a verdade é que raras vezes me arrependi. Sou daquelas que se diverte até com livro ruim.

Mas o que vejo ali, esta semana, não são romances rosa, fantasias medianas ou o erótico-pornô que fez a alegria de muita gente, principalmente das editoras, há alguns meses atrás. O que vejo, são duas prateleiras cheias de livros para… pintar. Nada de texto, só desenho. Lá dentro, várias mulheres – é  estranho isso: parece que só as mulheres se interessam por livros de colorir. Por onde antarão os Monet, os Dalí? – várias delas, eu dizia, zanzam, de livro em livro, como abelhas num jardim. A fila para pagar é grande, e tem muita gente com os ditos livros na mão, dois ou três deles, e todas impacientes. Impacientes para pagar de uma vez, ir embora logo, chegar em casa depressa e sentar-se a desenhar para ver se o estresse some e o tempo se alonga. Tão relaxante…

Livros com ilustrações para pintar me dão urticária desde criança. Nunca fui muito de ficar durante horas rabiscando colorido. Mesmo assim, para ser sincera, estou pintando uma ilustração dessas há uma semana. Sim, sete dias ou mais, nas mesmas folhas e frutos. Tudo bem. Não é para desestressar?

Daí, dentro da loja há uma caixa de lápis de cor de 48 tons. A única da prateleiras, e ao ver o vazio ao seu redor – talvez fosse a última do estoque – lembrei de algo que li na internet, que duas mulheres se pegaram no tapa por causa de uma caixa de lápis de cor de 48 tons, também a última de um estoque. Muito desestressante, isso. Hilário, na verdade.

A livraria promete. A fila está grande e mais e mais mulheres se aproximam dos livros. Várias olham para a caixa de 48 cores com lúbrica cobiça. Duas ou três se aproximam da mesma, espiando-se com o canto dos olhos.

Acho que vou ficar por aqui, encostada no pilar, esperando. Tudo indica que daqui a pouco terei um bom tema para uma crônica.

Talvez, até, uma crônica policial.

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