Saldo do dia

circoNa caminhada, mudo de percurso. Não era bem a ideia, mas vou parar no circo que está fazendo espetáculos na minha cidade.

Confesso, não sou platéia de circo. Não gosto. Tem algo no circo que… não sei. Mistério demais, talvez. Um circo é um castelo assombrado, com suas bandeirolas e picos, cheio de aparições, sustos, encantos, visões que do sonho para pesadelo são um passo. Para mim, o circo é sempre assombrado.

E não é? Chego ao dito cujo. Letreiros coloridos, cheios de lâmpadas que à noite estarão piscando, mas agora estão apagadas. As portas, que à noite estarão abertas para receber o público, agora estão fechadas. Nada se move, a não ser a brisa, que é fria, mesmo sob o sol. Na lateral e atrás da lona azul celeste – este circo mais parece um pedaço de céu – os treilers onde os artistas fazem a vida do cotidiano. Grandes treilers, todos brancos, com enormes janelas, de um tipo eu que nunca tinha visto. Suponho que se acoplem a um dos muitos caminhões que aguardam, ainda atrás de onde ficam as moradias sobre rodas. Não tenho dúvidas, o conforto dentro deles deve ser o mesmo de uma casa. O espaço, parece ser mais do que o suficiente. Conheço apartamentos menores. Inclusive, apartamentos menores do que a casinha de cachorro ao lado de um dos caminhões, plástico colorido e também vazia. Esquisita essa casinha colorida, esquisita como um recorte mal colado sobre um quadro que não era para ser assim.

Tudo fechado. Nada se move.

Sob o sol, todas as cortinas estão fechadas. Todas as portas. Ali, o triciclo de uma criança, vermelho com rodas de aro branco, igual ao que eu tinha quando menina, quieto e óbvio como um cenário. Mas não há risos na brisa leve, nem o som de passos. Junto ao triciclo, um varal com poucos panos. Ninguém os lava, mas eles estão ali, como se tivessem sido postos nesse exato momento – você é que estava olhando para outro lado, talvez. No alto, perto do céu, as bandeirolas ao vento, alegres, recreativas. Aqui embaixo, o sopro frio e o silêncio. Não há senhores colocando seus sapatos de palhaço para arejar, coloridos e imensos, não vejo a roupa da contorcionista pingando o suor de ontem, ou a capa do mágico balançando no varal ao lado das toalhas. Não vejo os capacetes dos motociclistas do globo da morte e se King Kong anda por aqui, deve estar lá dentro da carpa, encolhido e dormindo o sono dos justos. Não vejo a corda do equilibrista, ou o enfeite do trapezista. Não ouço riso, nem a voz do homem forte, ou a chicotada certeira do que desafia a morte.

Tudo é silêncio. Tudo.

Caminho, curiosa, olhando. Se eu ao menos visse a moça que se balança naqueles aros, fazendo do seu corpo uma corda viva, cozendo, prosaicamente, os fundilhos da calça do apresentador… ou ouvisse um dos músicos da orquestra repetindo um compasso de ensaio como se fosse fazer um corda amestrada subir até as estrelas… mas vai ver que não há mais orquestras nos circos.

Não sei. Talvez não haja ninguém em lugar algum.

Penso nos livros sobre circo que li. “Alguma coisa sinistra vem aí”, diz o título de Bradbury. Por algo será que o sinistro dele vive em um circo. Ou “O Circo da Noite”, da Morgenstern, cujo nome já parece o de dono do estranho negócio de encantar as platéias. “Respeitável público”, diz o outro autor. Talvez o início dessa história que não me contam seja assim: “Respeitável público, eu Morgenstern, senhor das ilusões, apresento a vocês o espetáculo mais sinistro do mundo. Se tiverem a bondade de olhar para cima, verão a lona que eu recortei do próprio céu do Hemisfério Norte, em certa última manhã de maio, colocando no lugar do rombo, um pedaço de lamê esverdeado que só se vê à noite e ao qual os incautos dão o nome de ‘aurora boreal’.”

Mais ou menos assim.

Caminho, distraída, e meus olhos dão com os cadáveres de dois sabiás. Meio ressecados, meios esmagados, mas reconhecíveis pela cor das penas. Estremeço. Aqui há algo, eu sei, eu sinto. Mas não há ninguém para contar o que é. Já não existem leões ou tigres em jaulas, nem ursos de óculos lendo “Um artista da fome”, ou panteras negras fazendo a manicure com um ar entediado de quem não demora a devorar a cigana que pacientemente lixa suas garras, enquanto lê o seu futuro na sombra de seus bigodes. Não há ninguém a não ser o silêncio, e o sol, e o calor, e a sombra das poucas árvores, os enormes caminhões e os dois pássaros mortos. Vou andando e pensando, “que sem graça, já não há nem feras!”, quando debaixo de um dos caminhões, junto à casinha de cachorro que eu julguei deserta, surge um pitbull marrom, clássico, enorme e forte, que me encara com olhos dourados, pepitas duras e mortais, patas firmes, prontas para o arranque.

Ufa, foi por um triz que a pantera não devorou a cigana, que o tigre não se transformou em homem, que o pitbull não mastigou esta sherazade de poucas noites!

Me afasto um pouco afobada, procuro meu rumo, acho, e em poucos passos estou a caminho de casa.

No saldo do dia, um céu por telhado, um susto, dois cadáveres e um arrepio. Coisas muitos sinistras se escondem debaixo do sol de maio.

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