Crônica de coisa alguma

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Tem dias que eu me repreendo. Quer ser escritora? Então há que se escrever. Umas mil a duas mil palavras, todos os dias.

Todos os dias.

Mas, vai, e cadê assunto? Não que falte, lhes digo, mas o caso é que eles nos soterram. Ninguém sobrevive sem ar, e assunto que soterra mata a vontade de escrever. Posso falar do vídeo do menino brincando com a raia gigante, no Facebook. O Facebook está cheio de coisas que poderiam virar uma crônica, ou uma crônica que, sem querer, termina virando uma coisa amorfa. Eu poderia falar do céu azul que vejo da janela – esta janela que, sem sair do lugar, já me rendeu textos muito interessantes. Ou do frio do inverno que nem chegou, pelo menos no calendário. A temperatura não quer saber de calendários. O Sol desliza pelo horizonte, todos os dias um pouco, nossa matemática que corra atrás. Quem sabe uma crônica sobre  o medo nosso de cada dia? Ou xingar os políticos – mas isso está mais do que batido. Sentada aqui, com o sol atravessando a janela e batendo nas minhas costas em plena tarde gelada vai dando uma preguiça… A cabeça não pensa mais, só relaxa, as ideias derretem. Isso é lagartear. Eu lagarteio, tu lagarteias, mas quem sabe da força do Sol é o Philae, que repôs suas baterias graças ao astro rei que o irá devorar.  Poderoso isso. Uma crônica sobre o Philae, então? Mas já escrevi duas! Tem aquele tema que eu pensei hoje pela manhã, mas depois ele escorregou pela tangente e desapareceu no caos. Adeus crônica, você até que ia ser passável, não fosse o café da manhã, lavar a louça, ir pagar conta. Às vezes eu acho que gente como Victor Hugo ou Michel Crichton (heresia das heresias é coloca-los lado a lado, na mesma frase), não pagavam contas. Quem perde tempo com essas picuinhas mundanas não chega a lugar nenhum no mundo da Literatura.

Escrever, na ausência absoluta de ideias, é técnica. Você não tem de fazer nada, só juntar as palavras e no resumo da coisa sai um texto que quase sempre parece dizer algo, mas na verdade não diz nada. No máximo, repete alguma coisa que já foi dita anteriormente. O leitor desliza os olhos pelas linhas,depois olha para o além e sua mente flutua entre as palavras como um beija-flor em busca de um botão.

Mas é inverno, raios! Não há botões de flores no frio – a não ser os da minha roseira, que indiferente ao gelar dos ossos e ao fugir das palavras, floresce, sem pressa, uma rubra ideia própria no meu jardim.

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