Tempo verbal

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Interessante esse tal de Futuro.

É, esse mesmo, que você enxerga pela janela do carro, ou lê nos jornais, escuta no rádio ou vê na TV.

Ele se parece tanto, mas tanto, com o Passado, que chega a dar nos nervos.

Certo, não é igual. Ainda bem que não é igual, porque daí eu ia pensar naquelas coisas exotéricas, tipo dejavù, que minha mãe apelidou de “játevi”. Os dias desse nosso Presente, que é o Futuro disfarçado de Aqui e Agora, são como uma sobreposição. É verdade que hoje tem internet e que isso faz toda a diferença. Agora tem hospital na Restinga, em Porto Alegre, e os carros vêm equipados com ABS e Airbag de fábrica e isso é bom, muito bom. Tem a rodovia do Parque, que é linda como o quê, é uma pintura de rodovia, uma pintura de paisagem e se a gente não presta atenção no trânsito, termina virando uma pintura de estatística, de tão bonita que ela é. Mas, sei lá, a sensação é que se o Tempo passou, não foi a lugar algum. A Crise reapareceu, tão parecida com há vinte anos que parece ser a mesma. Estão falando em taxar o preço dos livros, que para mim é papo já visto e revisto. Daqui a pouco dirão que Literatura é artigo supérfluo, como o foi há mais de quarenta anos. “Supérfluo” foi a primeira palavra do politiques que aprendi a dizer, graças ao Delfim Neto, que na época era Ministro da Economia e taxou os livros de “supérfluo”, para meu desespero. Minha conta corrente continua periclitante. “Periclitante” é palavra familiar que eu aprendi antes do “supérfluo”, e que explica a situação da minha conta bancária melhor do que qualquer economês oficial jamais conseguiu. Então, minha conta continua periclitante, e vou fazendo malabarismo com as entradas irregulares. Sempre foi assim. Sempre. Diziam que no Futuro, no meu Futuro, as coisas teriam se ajeitado. Equilibrado. Enfim. Não foi.

Ou, vai ver, o tal de Futuro ainda não chegou. Chegou a internet, a TV a cabo e o celular, mas o Futuro ainda não. A prova disso é que ainda não apareceram os skates antigravitacionais. Até aparecerem pranchetas que deslizam sem rodinhas e carrinhos voando na altura da minha janela, nada feito de Futuro. O que por um lado é bom. Vou continuar podendo me trocar sem me preocupar com o que há do outro lado do vidro da vidraça. Como há vinte anos atrás.

E o Futuro continuará ali adiante, acenando como uma imagem bonita mas mal focada. E toda a vez que a gente chega até ele, viu que virou Presente e daí já é Passado. Só nos falta agora descobrir que taxaram o Futuro de supérfluo e que daqui em diante tudo será um eterno Presente e que todo o Amanhã nascerá Passado, visto e retocado por um ranço de tédio, de pressa e de cansaço.

O que os fazia não desesperar do Futuro, jamais, era a certeza de que ele seria diferente. Para onde foi o meu Tempo, que eu não soube mudar como a letra da canção?

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