Lembrança branca

árvore

Será que eu já contei?

Quando eu era menor, e morava em Gramado, tinha medo da cerração.

Ela chegava no inverno (de fato, em qualquer época do ano, mas no inverno era quase todo o dia), lá pelas cinco horas, que era, mais ou menos, quando eu saia da escola. Eu ia para casa à pé, sozinha, uma duas, quatro quadras, eu acho que eram quatro quadras e poucas ruas com ainda menos movimento. E quando eu entrava na rua onde morava, uma ruazinha que existe até hoje, estreita de dar dó, marcada por uma esquina dominada por duas construções que a fazem parecer ainda mais estreita e sombria, eu via aquela onda branca tomando o morro arborizado à minha frente, o morro de altos eucaliptos que rugiam como o mar, quando havia vento, e grandes pinheiros sombrios, aos pés dos quais cresciam cogumelos vermelhos com pintas brancas, como eu só tinha visto nos livros.

Ela vinha, silenciosa e secreta, devorando o mundo com seu diáfano toque branco, apagando tudo, tudo. Escorregava sobre o asfalto, transformava volumes em sombras amorfas e em questão de dez passos eu já não via minha casa ao pé do morro. Sequer as grandes árvores. Tudo virava uma claridade branca e quieta. Expectante.  O anoitecer, que no inverno já vem mais cedo, chegava ainda antes. Eu me apressava para ir para casa, para poder ver os contornos do mundo desde o lado de dentro das vidraças. Mas, na real, nem olhava muito para fora. Tinha dias que não se via, sequer, o outro lado da rua.

Hoje, a Gramado que eu conheci não existe mais. Foi substituída, como todo mundo sabe, por um shopping a céu aberto. Contudo, os velhos eucaliptos e pinheiros, ainda resistem. Alguns foram abatidos por raios, outros esperam o seu dia, marcado em algum calendário da exploração imobiliária. Mas os maiores e mais poderosos ainda estão lá. E continuam rugindo, quando a brisa sopra, e as amanita muscaria continuam crescendo na sombra úmida e quente do outono.

Quando, já, nenhum deles estiverem por ali, ela ainda estará por algum tempo: a cerração branca que devora o mundo com sua fome silenciosa. E depois, como tudo o que o progresso toca, também ela se dissipará. A cerração, eu sei hoje, é o suor dos vales, das árvores e do silêncio do cogumelos venenosos. Quando eles desaparecerem, esse suspiro branco também desaparecerá.

E eu a guardarei com ciúme na minha lembrança. Ela e o medo que me fazia sentir.

Até o dia em que eu também for apenas uma palavra na memória de alguém. Um sopro branco de lembrança amorfa e silêncio expectante. Então eu e a cerração seremos uma nuvem no céu, navegando baixo e talvez umedecendo de leve as folhas que ainda restarem nas árvores dos jardins.

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