Quando eu crescer

idosos

Pesco na internet, aquelas notícias incríveis:

Idosa de 97 anos, foge de asilo para ficar com o amante de 87.

Veterano foge de asilo na Inglaterra, para ir à cerimônia de aniversário do dia D (essa foi no ano passado).

Idoso com Alzheimer foge de asilo sem deixar pistas.

É, já não se fazem mais idosos como antigamente. Antigamente, os idosos ficavam em casa, as avós faziam os melhores bolos do mundo e tricotavam. Os avôs olhavam o mundo pela janela, rezingavam e contavam histórias de quando eram jovens.

Hoje, eles fogem. E quem não gostaria?  Um lugar que não é a casa deles, mas é onde eles moram, cheio de gente que lhes diz o que fazer, o que tomar, o que comer. E, quando penso na idosa de 97 anos, chegou a conclusão de que lhes dizem o que sentir. Ou o que não sentir.

Essa coisa da idade é um processo indecoroso que inventamos para facilitar a vida – como se a vida fosse uma coisa que, quando facilitada, não se complicasse ao infinito. De acordo com a idade, espera-se que as pessoas sejam infantis ou maduras, que se comportem, enfim, como a maioria.

A maioria, essa maldita ditadora.

A maioria é acomodada – daí porque é maioria, porque se assim não fosse, seria um enorme contingente de pessoas pensando e sentindo pelo próprio cérebro e pelo próprio coração, coisa que deixaria completamente desnorteado aqueles que vivem para organizar e fuxicar a vida dos outros. Se não houver maioria, como regimentar a vida das pessoas? Não há como ter um sistema de leis, não há como ter um sistema social. Valeria o tal do “amai uns aos outros como a si mesmo”, já pensou na dificuldade? A gente ia ter de ver o outro como uma individualidade diferente de nós mesmos, e teríamos que aceitá-los como são. E daí que os idosos com espírito de aventura deixariam os filhos de cabelos brancos antes da hora, e as crianças de cabeça centrada seriam capazes de resolver, com a simplicidade que as caracterizam, questões complexas como o preconceito – e nos levaria a acreditar naquela máxima que diz que todos, afinal de contas, somos iguais, porque somos todos diferentes uns dos outros. O que parece ser contraditório mas não é, porque no fundo, tudo o que queremos é o mesmo que os idosos fujões querem: Liberdade, Amor e  Loucura.

O resto, são contas a pagar, sonhos a adiar, e a certeza de que não haverá tempo para nada debaixo do céu, a menos que se dê o peitaço de viver.

Viver em qualquer idade, em qualquer condição, em busca do bem maior que deveria nos guiar, não fossemos sempre iludidos pelo ter coisas: o ser feliz.

Quisera um dia acreditar que o amor acontece aos 97. Quisera um dia ter coragem de ir à comemoração de um dia D qualquer. Quisera um dia mergulhar na maluquice da vida.

Mas até que isso aconteça, eu, parte da manada que sou, vou olhando as notícias dos idosos fujões e pensando, sonhadoramente, que um dia, quando crescer, vou ser como eles.

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