Dinossauros, todos nós

dino

Não sei, às vezes tenho a impressão de que o Brasil desistiu.

É quando eu vejo essas manchetes, gente sendo morta por um celular, gente sendo linchada, gente sofrendo acidentes terríveis, morrendo de um jeito horrível. E às vezes nem morrem, mas fica a impressão de que as pessoas acham que as leis da Física são equivalentes em termos e condições às leis humanas e que no fundo não dá nada, como foi aquele acidente com um Kadet ocupado por onze pessoas. Onze! Esse pessoal não pensou no que poderia acontecer. Eles desistiram de pensar. Ir até onde queriam ir era mais importante que qualquer coisa. Abriram mão do óbvio: era óbvio que o risco era alto demais.

Fico imaginando se foi assim que os dinossauros foram extintos. Eles foram desistindo de pensar, deixaram de construir os radares que poderiam ter detectado o fatídico asteroide, abriram mão do conhecimento que poderia, talvez, ter mudado o rumo das coisas, se aqueles que tinham dedos e polegares – tá, eram os predadores, mas fazer o quê? – tivessem optado, em algum momento, em criar uma linguagem, uma ciência, um foguete e detonar com o tal do asteroide. Mas eles desistiram de pensar antes mesmo de começar. Correr atrás da comida era mais divertido, contemplar o por do sol e os pântanos, mais poético, e demonstrar seu colorido para agradar as fêmeas (ou os machos, vá saber), muito mais interessante do que se debruçar sobre o problema dos verbos, dos teoremas matemáticos ou a complexidade do Universo. Deu no que deu.

Às vezes, não sei quantas, muitas mesmo, eu fico com a impressão de que vamos pelo menos caminho. Que não vai adiantar ter dado ao mundo Vinícius ou Drumond, ter construído Brasília ou o bondinho do Pão de Açúcar. Não vai adiantar ter mandado um astronauta para o espaço, nem ter afogado Sete Quedas. Porque os brasileiros desistiram. Não da novela das oito, que é às nove, nem do futebol, ou do celular de última geração. Nós desistimos da cidadania, da humanidade. Estamos rumando, rápido demais, para o pântano dos dinossauros, para a caça desenfreada, para o mundo da barbárie. E não por que a Justiça seja lenta, as Leis permissivas, ou o Governo corrupto. Não.

Estamos rumando porque queremos. Porque dá menos trabalho linchar um sujeito do que levar a cabo o processo da Justiça. Dá menos trabalho assaltar um sujeito do que trabalhar pelo que se deseja, e ainda menos trabalho matar um sujeito para pegar o que é dele do que roubá-lo, limpamente.

Estamos desistindo. Rápido demais. Estamos nos tornando simples dinossauros. E a gente sabe como essa história terminou.

Ou você desistiu dessa página do livro de ciências, também?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s