Navegação

guaíba

Noite fechada, vou voltando da capital. Na avenida nua, de asfalto negro, os carros passam com velocidade por mim. À esquerda, os trilhos do trem, protegidos de nós, motoristas, por uma grossa grade de concreto. Mais além, as luzes do cais.

Debaixo das lâmpadas que iluminam, poderosas, a estrada, vai se formando um tênue cone branco, vaporoso e intangível, mas real como a luz.

O rio está aqui.

Há cada quilômetro, a névoa se consolida, mais e mais, compactando a escuridão em uma fímbria de luz e água. Além dos trilhos e das estações profusamente iluminadas, outra tira de asfalto. Depois os silos horizontais de cereais, e os navios, essas construções de metal, que à noite mais parecem uma cidade, com corredores e avenidas próprias, com rampas e holofotes.

E depois deles, finalmente, o rio propriamente dito. Escuro feito breu. Sabe-se que ali há rio, porque ali não há nada, a não ser a noite. O rio é o refúgio da noite verdadeira, o único lugar onde ela ainda reina, uma tira de escuridão e umidade serpenteando. O rio desenha a fronteira da urbe, e Porto Alegre se debruça sobre ele como uma velha diva adornada de miríades de joias, luzes que se acendem e apagam em alternância, até que a madrugada chega e só restam as que foram esquecidas, as que iluminam escritórios vazios, ambições adormecidas e o som dos elevadores que vagueiam pelos poços, assombrados por chamados desertos.

O rio está aqui.

Ele vem com todo o seu silêncio e chapinhar, com todo o seu recorte e difusão, névoa branca permeada de velhas histórias e novas poluições. Talvez um dia essa noite seja só parte de uma lenda, também. Talvez.

Agora o rio está aqui, névoa que engole as luzes dos carros avante, e nós navegamos por ele, os faróis poucos diante da muralha incorpórea. De nada adiantou aumentar as margens, construir estradadas, ganhar terra à água. Ele continua reclamando para si o que sempre foi seu. Feito um delírio, o rio se expande de seus limites e nos toma e nos engole. E enquanto navegamos com rapidez, ele nos acolhe, o rio dos belos crepúsculos, das tardes de sol e das ilhas fronteiras.

O rio que não é um rio. O rio que não se sabe o que é.

Está aqui.

É pura nuvem, que será chuva, talvez, amanhã.

E ninguém saberá que é o rio de ontem que navega sobre nós, entre a terra e o sol do amanhecer.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s