Crônica da goteira

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Tem uma goteira o meu quarto. Na verdade não é uma, são três, mas tem uma delas que é mais saliente e se manifesta toda vez que chove um pouco mais forte. Lógico que a chuva de hoje foi um excesso. Desde às seis da manhã até agora – são dez para as dez da manhã, já deu meio balde de água, só naquela goteira.

A goteira é na janela. Não é no teto, porque moramos no penúltimo andar de um prédio e se supõe que não haja goteiras no teto de apartamentos no penúltimo andar. Fica ao lado da minha mesa de trabalho, ao lado do meu PC, então toda vez que a goteira se manifesta, eu corro o risco de molhar equipamento elétrico. Existe a possibilidade de um dia eu não perceber e provocar um curto.

Mesmo assim, eu gosto da minha goteira. E toda vez que minha mãe fala em reformar a janela e eliminar a dita cuja, eu torço o nariz. Não falo nada, mas torço o nariz. Como é que vou dizer, “deixe a minha goteira em paz, ela é parte da família”? Ou “ela é de estimação, não mexa com ela”?

É que eu gosto do barulhinho que ela faz. É um incômodo, é claro, mas eu prefiro que meu cérebro me desperte com um plic-plic do que com a campainha estridente do relógio. A urgência de secar o chão me obriga a levantar. E se por acaso tem um balde sob a janela, eu finjo que estou meditando, me concentro no ruído das gotas e adormeço tão rápido que dificilmente escuto a segunda ou a terceira se acabar entre as muitas que já estão. Elas vem carregadas de pó e cimento, contando uma história de paredes e água. E não posso deixar de pensar na gota que partiu do alto de uma nuvem cinzenta, estatelou-se no parapeito da minha janela, infiltrou-se no reboco, e tudo isso antes de pingar, delicada. 

Imagine se eu vou querer me livrar dessas visitantes celestes. Se vou querer silenciar seu marca-passo líquido. Não, mesmo! Seria, inclusive, falta de hospitalidade. E na falta de poder abraçar as tempestades de inverno, me dedico a recolher as gotas de chuva, como quem coleciona momentos.

No fundo do balde azul, uma pequena camada de areia se forma. Vai ver, algum dia nascerá ali um vegetal inesperado e ansioso, que florescerá em questão de horas, e me dará de presente uma flor fugaz que cheire à ar puro e nuvens. Que tenha cor de lua, e cintile como uma estrela distante no céu de julho.

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