Enchente

enchente

Olho para fora e ainda chove. Eu sabia que estava chovendo, porque o som da chuva é um chiado constante e baixo, mas sou viciada nos meus olhos. Então, olho para fora, e ainda chove.

Chove com uma tristeza infinita. É o que eu sinto quando vejo as fotos das ruas alagadas, as casas inundadas, quando ouço a história das pessoas que perderam tudo, as que tiveram de ser resgatadas, quando vem a notícia de que os bombeiros não dão conta dos chamados, falta água e falta eletricidade.

Chove como se o céu chorasse. É o que me parece quando vejo crianças molhadas, enlameadas, abraçando cães tão molhados, enlameados e trêmulos quanto elas. Ontem a noite, enquanto eu vibrava à cada raio branco e brilhante, o céu chorava de raiva, talvez, se é que a Natureza sente raiva. No fundo, eu acho que não. Se a Natureza tivesse raiva, seriamos varridos de um sopro. Se ficasse triste, nunca mais floresceriam as ervas daninhas.

Mas quando vejo as fotos do lixo acumulado na superfície das águas que escorrem pelos canais construídos em concreto e lama, a tristeza bate com força. Não aprendemos. É como se dia após dia repetíssemos uma lição que já deveríamos saber de cor e não sabemos. Não aprendemos. Viver dá trabalho. Quanto menos esforço melhor. Quanto mais vantagem, melhor. A curto prazo. Quanto menos tempo de espera, melhor. O que os olhos não vêem, o coração não sente, então a gente joga o lixo em algum lugar fora do nosso campo de visão. Problema desaparecido.

Não aprendemos. Será que um dia iremos aprender?

Não sei se chove desse jeito por nossa culpa. Talvez. Mas a questão é a nossa incapacidade de reagir à altura dos acontecimentos. Há o socorro, é claro, a solidariedade, sempre socorremos. Mas a prevenção é mais complicada. Nossa forma de pensar não admite acreditar que um dia a casa poderá cair. Nós acreditamos no pensamento mágico de que amanhã é um novo dia, quando tudo se solucionará sozinho. Não parece que acreditemos no pensamento ainda mais mágico de que somos nós os que, literalmente, construímos o amanhã.

E enquanto isso chove. Com uma tristeza infinita, como se o céu chorasse, como se o mundo fosse uma aquarela prestes a se dissolver. Barcos percorrem ruas. Pessoas se movem como anfíbios. Crianças e cães tremem nas margens reinventadas dos rios. O lixo boia pelos córregos, formando ilhas.

A culpa é sempre da Natureza. A fúria, a raiva, a ira divina.

E enquanto pensarmos assim, nossa será a tristeza. Sempre.

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