Escalada

julio cerro catedral Edivaldo Soares
Júlio Romero, no Cerro Catedral, em Bariloche. Foto de Edivaldo Soares

Meu amigo está no topo do mundo.

Eu olho para ele e penso nos dias em que vivemos, nas melodias que dividimos, no palco, nos rodopios e nos tropeços. Penso nas zangas, nas brigas – toda amizade de verdade sobrevive à elas como à chuvas de verão. Depois que passam, a gente nem pensa mais no aguaceiro. Sou uma privilegiada.

Meu amigo está no pico de uma montanha.

Eu sei que ele passou por muitas para chegar até ali. Ninguém chega ao topo do mundo sem tropeçar muitas vezes. Nem, muito menos, sem ter alguém para segurar na sua mão. Alguém fez isso, que não eu. Das poucas vezes que estendi a mão, foram ajudas pálidas, e ainda assim, ele continuou meu amigo.

Meu amigo está ali, com os pés enterrados na neve. Se esticar a mão para cima tocará o céu.

Amizade é assim, uma coisa estranha. Um tipo de amor que a gente sente pelo outro. Vem os dias e as distâncias. A vida nos leva por caminhos separados e por muito tempo, tudo o que a gente tem são as lembranças. Depois a vida nos aproxima de novo, e a amizade aparece outra vez. Não igual, porque o tempo nos torna diferentes do que éramos. Aprendemos – eu espero ter aprendido. Ele, eu sei que aprendeu muito – com o passar dos dias. Nos tornamos mais fortes. Mais frágeis. Mais tristes numas coisas. Mais alegres em outras. Mas a amizade está ali, um elo que enfrenta todas as idas, vindas e todas as mudanças da vida.

Meu amigo está no alto da pedra mais alta da montanha, olhando o horizonte. Eu sei que ele não está no alto do Everest, mas sei que não há nada entre ele e o céu, e entre ele e o horizonte. Não por causa da foto, mas por causa do seu olhar. Meu amigo venceu o caminho e está lá olhando para onde ir agora. Há uma luz nele que eu nunca tinha visto antes. Não é esperança do que virá, mas o que foi vivido. Todo amor que ele sentiu, está ali, como uma fogueira firme e leal, iluminando o sol. Ainda sente, ainda arde. O tempo não mudou isso – a tornou parte dele.

No alto da montanha, meu amigo. E eu, aqui de baixo, olho para ele e penso que dá para ir.

É só viver.

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