16 de julho de 2015, o adeus

O texto foi enviado para o Jornal NH, mas não saiu na edição do dia 17. Suponho que o jornal o vá colocar na página de opinião, mais adiante, mas então, estará desvinculado de seu momento. Para os leitores do Porteira da Fantasia, a minha homenagem a Ernesto Frederico Scheffel.

scheffel
“Batismo de Cristo”, E.F. Scheffel, Cappella Ignesti San Piero a Sieve

___________________________________________________________________________________________

Hoje, os quadros amanheceram vazios.

Durante a noite, homens e mulheres, criaturas fantásticas, animais, todos desapareceram. Ficaram em seu lugar apenas os espaços vazios, a lona velha e algumas nuances de cor.

Tudo é silêncio no salão. Às vezes um carro passa na rua e o chiado das rodas ecoas pelas paredes, às vezes o chão de madeira estala. O piano negro, de vez em quando estremece sob o pano que o protege, e o que se ouve não é a madeira, mas um acorde triste.

O cavalo de bronze também não está no seu lugar.

Tudo está vazio e quieto.

A água que escorre pelas janelas não é chuva, são lágrimas. Um pedaço da nossa história se calou. Uma força que durante anos ousou e teimou muito além do que imaginavam seus detratores, e conquistou mais do que o exterior com sua arte, sua música e seus pensamentos. Conquistou um espaço aqui mesmo, a mais difícil das façanhas. Uma conquista que se manterá? Quem sabe? O Tempo, apenas, mas ele não tem pressa em revelar seus segredos.

Hoje, os quadros amanheceram incompletos.

Todos os personagens, as mulheres e os homens, os animais e as criaturas fantásticas, desapareceram. Foram render sua última homenagem ao seu criador. Ficaram as sombras, acoitadas pelos cantos, esperando o momento de se revelar. O Tempo nos dirá quando, mas por enquanto, tudo o que nos sobra são as lágrimas que escorrem pela cortina dos nossos olhos como se fossem chuva.

Foi só quando o relógio da igreja evangélica deu as suas badaladas, que eles voltaram. Cabisbaixos, tristes por um momento. Depois, pronto, os quadros estavam completos de novo, o cavalo de bronze estava no seu pedestal, e a tristeza se condensou num suspiro uníssono de último alento.

E depois, quando nossos olhos finalmente voltarem a contemplar as cores, as ideias, o movimento imobilizado pelo pincel há muitos anos, a selvagem força de toda criação emergirá dos panos, dos papéis, dos teclados, com força renovada. A cada olhar nosso, a cada audição, Scheffel se reinventará.

O gênio não morre: adormece.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s