Maromba

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Fim de semana, conheci o Maromba. Quatro patas, cor de mel e uma coleira azul de boa qualidade.

Ao sentar na mesa externa da chocolataria para desfrutar da iguaria – que por certo tenho me obrigado a substituir por chá, ora vejam! – vê-se passar vários totós, todos eles acompanhados de seus donos. Todos eles de coleira e correia e, pasmem os que não conhecem cachorros chiques, empáfia. Pois cachorro de madame não dá bola para desconhecidos sentados em chocolataria, nem que a vaca tussa ou um petisco caia ao chão. Eles trotam ao lado dos donos, focinho apontando para o céu, rabo empinado – os que não tiveram seu precioso enfeite transformado em um curto apêndice, é claro. Esbanjam charme e antipatia. Não confraternizam, de jeito nenhum.

Gente que ama bichos fica olhando, desejando uma piscadela, que seja.  Eles, nada. São estrelas e sabem disso.

Pois conheci Maromba enquanto sorvia o chá. Ele se aproximou com aquele passo de cachorro animado e de imediato olhou para mim. Veio na minha direção como quem me conhece, ficou por ali, sentou ao meu lado. Cusco limpo e saudável, tranquilo como um monge budista. Deixou que eu o alisasse, que coçasse suas orelhas. De leve e sem compromisso. Sei eu se não vai me sair um dono, lá pelas tantas, de trás de algum arbusto e me acusar de tentar roubar o cachorro? Sei lá, hoje em dia, sequestro  canino virou moda…

Como o dono não aparecia, resolvi ler a etiqueta que a coleira azul do cachorro tinha pendurada – que ele a tinha. Uma daquelas etiquetas que a gente coloca em chave, conhece? Com espaço para escrever “chave da porta” ou algo assim de elucidativo .

Pois na etiqueta da coleira estava a identificação: “Maromba. Cão comunitário. Não gosta de ficar preso. Favor não prender.”

Aí sim que o Maromba me conquistou. Não é que ele é um simples totó, ele é um cachorro comunitário. Todo mundo o conhece. Ele é livre. Pode fazer amigos onde quiser, se quiser e inclusive recusar chocolate, como recusou. Maromba sabe o que é bom para ele, como pude perceber. Faz seu exercício diário, está aberto à novos amigos. Amo cães de rua por causa disso: eles tem personalidade. Se quiserem ser amigos, irão se aproximar. Se não, ficarão longe, mas olharão para você. Não há a obrigação de ser limpo e cheiroso, aliás, obrigações que nós inventamos para eles. Não precisam fingir que são seres humanos. Podem ser, simplesmente, cão.

Pois ali ficou o Maromba, a meus pés por alguns instantes, antes de se jogar, preguiçoso, num vão entre as mesas. Piscou, relaxado, deitou e deixou escapar um suspiro do fundo de sua alma.  E eu ali, admirando seu pelo curto, sua cara de vira-latas e suas patas firmes.

Isso foi ontem. Agora mesmo chove. Ameaça fazer frio. Me pergunto, onde andará Maromba, nesse dia do Amigo? Será que ele não preferiria estar aqui dentro, no seco, mesmo que isso significasse ficar preso?

Daí lembro do suspiro satisfeito e sei que a resposta é “não”. A liberdade é cara, mas nada a substitui.

A não ser, talvez, uma coçada de orelha, ou duas.

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