Vida

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Passeando por Gramado encontrei em uma galeria um balcão de madeira cheio de garatujas. Ele é próximo daquela fonte que foi feita para receber cadeados do amor eterno, ao lado da igreja católica.

Eu sempre acho estranho essa mania das pessoas de tentar provar que um amor é eterno. Esse desejo de prender o amor de alguma maneira, nem que seja com um cadeado em uma grade. Me imagino uns quantos cupidos ali, uma das asinhas presas no cadeado e a outra tentando esvoaçar para o céu azul. Que amor pode se realizar assim, prisioneiro, dolorido? Amor é para voar por aí, incorpóreo, e invisível, e trapaceiro. Prendê-lo em uma grade é preguiça de viver o dito cujo todos os dias, redescobrir, provocar, conquistar. Amar dá um trabalhão danado, sô!

Mas, aí, como eu dizia, escondido em uma galeria, aquele balcão de madeira. Cheio de garatujas. Corações gravados. Com flechas e sem elas. Iniciais. Nomes. Juras. E aquele dito consagrado, não pelo turismo, mas pelo andar do Mundo pelas órbitas celestes: João e Maria. Só assim, sem verbo no meio. Não precisa. A gente já sabe: o amor de João e Maria não está preso em um cadeado, está ali, escrito em um balcão de madeira. Subentendido, desafiante e atrevido.

Atrevido, como todo o demais, porque abaixo de todos aqueles nomes, daquelas confirmações de amor e identidade – “Clodoaldo esteve aqui”, essas coisas que se escreve  sem a menor inspiração – há uma placa pretenciosa, impressa em letras enormes e com uma tarja amarela para dar mais destaque.

“POR FAVOR, NÃO ESCREVA NO BALCÃO”, grita ela.

E eu me pergunto, porque alguém colocaria tal placa em um lugar assim. Será um convite às avessas? Um desafio? Uma proibição verdadeira, embora tola? O Zé, a Mari, o Douglas, todos eles deixaram lá a marca de sua existência. O próprio bilhete vai sendo borrado pelas mãos e cotovelos que se apoiam nele para gravar sua mensagem em letra palito, em letras cursivas, corações, rabiscos, datas. “Vida”, alguém escreveu.

Talvez seja isso mesmo: “vida” é o que subverte a ordem, que vence os pedidos estéreis de silêncio. A vida é o pecado de todos nós, que alguns cometem e outros tentam prender em uma tradição de longa data inventada há um ou dois anos. Vida é o que acontece espontaneamente, sem pedir permissão, sem atender à proibições, mas dizendo um sonoro “sim” aos convites subentendidos nas entrelinhas.

Vida, essa companheira inseparável da transformação. Transformação, essa mágica que faz de um tampo de madeira um cartaz amplo do que veio para arranhar o que é duro e deixar gravado a certeza do aqui e do agora, que depois e acolá já não será igual, nunca mais. Era um tampo, hoje é caleidoscópio de atrevimentos.

Vida é o que a gente faz ser diferente.

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