140 vira-latas

cães
Diego Vara/Agência RBS

Toda vez que acontecem Grandes Coisas, também acontecem Pequenas Grandes Histórias. Foi assim com a Copa do Mundo (quando eu deixei de escrever uma crônica sobre três uruguaios e um cão argentino, mas ainda o farei, me aguardem). Assim é nas grandes tragédias, sejam lá quais ou onde forem. Essas pequenas grandes histórias são as que nos fazem pensar que a vida não é muito organizada – mas quem é que precisa de organização?

Agora, com as chuvas da semana passada, os rios subiram. Subiram muito. Deu enchente. Todos os anos acontece alguma enchente, algumas mais pontuais, outras que abrangem várias cidades. Algumas cheias são só para que os rios nos lembrem que eles continuam presentes e que são grandes forças da Natureza, a despeito do que fazemos com eles e da nossa mania de organizar e catalogar tudo.  Por exemplo,  a gente cataloga as sobras: algumas vão parar no álbum de memórias, outras a gente chama de “lixo”. E lixo, a gente coloca fora de casa. Como ainda não sabemos reciclar – tudo há que se aprender nessa vida – o lixo fica por aí, fora de casa, em algum lugar, já que nessa realidade nada se cria, nada se perde, tudo se copia e se transforma em outra coisa. Quando não é por bem, é por mal. Assim, grandes quantidades de pequenos lixos se transformam com uma rapidez surpreendente em pequenas quantidade de grandes ilhas de lixo flutuante que entopem os canais que deveriam de ser de escoamento das águas, aumentando o drama e o sofrimento de quem perde tudo: casa, móveis, eletrodomésticos, memórias.

Sei, sei, esse exemplo eu vivo usando. Desculpem o repeteco, por favor.

A pequena grande história que eu queria comentar, contudo, não é das ilhas de lixo que fecharam canais e entupiram bombas que foram projetadas para jogar a água de um lugar para o outro, mas a do José Damião. José teve a casa alagada pelo Arroio Feijó, e isso que já a construiu alta, para que não fosse invadida por alguma cheia. Mas a desse ano foi excepcional. Foi uma Grande Coisa, com letra maiúscula. Ele saiu de lá com água pelo peito, resgatando a esposa e os filhos. E depois voltou pelos seus cães. Ele salvou os que pode, como aqueles heróis incansáveis que a gente vê em filmes onde o ator que faz de mocinho ganha milhões de dólares como salário. Feijó não ganha milhões de dólares ou reais, ele é carregador na Ceasa, mas levou os cães para um ônibus sem bateria, onde estariam abrigados da chuva. Os seus e todos os que encontrou pelo caminho, molhados, famintos, perdidos, zangados, tristes, aflitos. No final, somaram 140 cachorros. E na terça-feira, Felipe Silveira, um empresário que andava resgatando pessoas com o seu jet-sky, no horário do almoço – por isso é que as grandes coisas se transformam em Grandes Coisas, com letra maiúscula – o Felipe arranjou um jeep e rebocou o ônibus de José para um lugar seco. Depois seguiu seu caminho, arrecadando leite em pó e roupa para quem perdeu o que tinha (você pode entrar em contato para ajudar no 8580-7434). Gente como o José, pensando bem, quando ele sair de seu ônibus cheio de pulguentos.

José foi mordido, passou noites e dias no ônibus com os cães. Tinha medo de que brigassem, de que alguma coisa acontecesse com eles. Nem quero imaginar o que a famosa raça humana seria capaz de fazer com os totós em tempos como os nossos, se não houvesse gente como o José. Ultimamente, não fossem os Josés e os Felipes, eu jogaria todas as minhas fichas no Aguaceiro.

Mas quando eu olho para humanos como eles, e leio suas histórias, eu sei, com certeza absoluta, que toda vez que uma Grande Coisa acontece, são gente como eles que fazem com que Deus, Natureza, Destino, Acaso, Física Quântica, Meteorologia, o que vocês quiserem chamar, decida nos dar uma nova chance. São os Josés e os Felipes que fazem a diferença.

Nós, os outros, apenas olhamos, nos emocionamos e aplaudimos.

E, não raro, por mais cruel e burro que pareça, pedimos bis.

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