Antes que o dia acabe

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Não, não se iludam, não há tempo para tudo embaixo do sol.

Antes que o dia acabe, escrevo algumas linhas sobre o assunto deste 24 de julho: o casal de idosos que processou seus vizinhos. Acontece que esse casal, caso você não tenha lido no jornal, se incomoda com o jogo de futebol entre pai e filho, que acontece à tardinha, no quintal de sua própria casa. Jogo, diga-se de passagem, que não acontece todos os dias; que leva de meia a uma hora para se realizar; que não conta com grande bilheteria, talvez alguns passarinhos em uma árvore próxima; que não tem foguetes, nem trânsito interrompido mas que resulta em muitos gols e muitas comemorações, comemorações que são gritos de alegria e abraços. Estão dizendo por aí que o que incomoda é o barulho da bola batendo na parede que divide as duas propriedades. Estão dividindo opiniões, em Santa Cruz do Sul, que é a cidade onde acontece o drama, porque tem gente que acha que esse é o normal das coisas e gente que acha que, de fato, ficar batendo a bola na parede do vizinho é uma incomodação.

Não acredite. O problema não é, nem de longe, o barulho.

O problema, estou convencida, é a brincadeira. É o pai e o filho brincando juntos. O problema é o riso e a alegria. O problema é o amor externado.

Eu também tenho vizinhos-criança. No verão – ou em qualquer esquentadinha que o clima dá –, quando não chove, eles brincam. Eles brincam todos os dias, o dia inteiro (e não apenas algumas vezes, e algum tempo), correm, gritam, riem, choram, brigam, riem de novo, ofegam. Na hora do jantar há uma trégua, que não é mais do que trégua. Depois eles seguem. Nove horas. Dez. Onze. Houve noites quentes, em que dormir era um desafio, que eles brincaram até à uma hora da manhã. Eu ouvi.

Imagine se os vizinhos dos dois jogadores de bola vivessem aqui! Seria um deus-nos-acuda! Chamariam a guarda-civil! Mas, sei lá, acho que eu durmo até em bombardeio, o caso é que o riso das crianças, mesmo histérico de mistério noturno, me embala. Eu durmo e sonho aventuras mil. Histórias de piratas, de aventureiros, de escaladores que viram passarinho e depois navegam até alguma ilha escondida atrás de uma estrela. Saber que nesse mundo de violência, crise e corrupção, ainda há crianças que riem, que brincam no jardim, me dá a certeza de que há esperança. Ouvir o riso dos pequenos no meio dos sonhos, me assegura que os pesadelos, um dia, terminam. Eles me afagam e me embalam, e eu durmo porque há crianças que riem, e fazem de conta, e brincam com o cachorro da família, um pulguento que late para a menor sombra. Eles nem sabem, mas são tão importantes para mim quanto as chuvas na estação certa e o brilho das estrelas do inverno.

A felicidade dos outros não me incomoda. O que me incomoda é perceber que as pessoas não querem ouvir a alegria dos demais. Que rir e brincar com o filho virou caso de tribunal. Que amor familiar corre o risco de ser regulamentado por alguma lei. Isso me assombra e me assusta.

É que eu sei, como você que me lê sabe, e como o sabe o casal que processou os vizinhos por brincar por uma hora no jardim da própria casa, que um dia o riso acaba. A gente cresce, o tempo passa. As pessoas partem da nossa vida. As pessoas partem desse mundo. Algumas delas, a gente não quer perder de jeito nenhum, mas perde, e nem deu tempo de jogar todos os futebóis, comemorar todos os gols, chorar todos as derrotas e gritar todas as glórias. Faltou tempo para aquela pipoca na praça, aquele olho no olho, plantar aquela macieira ou ler aquele gibi. Porque, não, não há tempo suficiente para toda a vida debaixo do sol.  Há tempo para, apenas, alguns respingos de tudo o que queremos fazer.

Esse pai e esse filho, sabem disso. As crianças que são minhas vizinhas sabem. O casal de Santa Cruz não. O casal ainda acredita no versículo que finge nos presentear com a eternidade. Eu não me iludo. Não há tempo para nada.

Então cada abraço é um pênalti e todo o riso é um gol.

Há que se comemorar a Vida, que é curta e vale a pena. Só a Morte tem o direito de reclamar o silêncio eterno.

E não sei se ela está a fim de fazer isso. Às vezes eu acho que não.

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