Compasso binário

tango

Eu tinha um professor de balé clássico que eu adorava. Certo, eu adorava todos os meus professores de balé clássico, porque eles me ensinaram muito mais do que eu fui capaz de aprender. Mas este em particular, Rafael, se chamava, também foi primeiro bailarino do Theatro Solís, em Montevideo. E houve um dia em que ele tentou me ensinar alguns passos de tango.

Nada mais hilário do que tentar ensinar uma teimosa a dançar tango. No mesmo instante em que ele enlaçou minha cintura e avisou que era ele quem mandava no compasso, fiquei surda. Vamos, não deixei de ouvir. Mas a música que ouvia e o que eu tentava fazer não tinham, nem de longe, a mais leve consonância. A ideia de alguém mandando nos passos que viriam a seguir era, simplesmente, uma aberração. Não faz parte da minha realidade.

Ele também dizia algo a respeito do tango. Dizia que era uma dança que se dançava “sobre un ladrillo”, ou seja, sobre um tijolo. Um tanto exagerado, mas eu entendo bem o que ele queria dizer. A gente não precisa ocupar muito espaço para dançar um tango. Não precisa limpar o salão. Basta um metro quadrado, não mais, para o casal.

Anos depois, fui fazer um curso de tango. Sempre ficam desafios na vida da gente, e este ainda o é. Pois fui fazer o curso para fechar par com um amigo, em meio a uns dez casais.

Foi muito instrutivo. Na primeira aula, a gente tinha de dizer porque estava ali. Um casal disse que desejava “apimentar” a relação.

Duas aulas depois, estavam discutindo em voz baixa. No terceiro dia, a discussão aumentou de volume. Não vieram nas aulas seguintes. Eles não sabiam dividir o espaço e as iniciativas de um terminavam sempre em críticas de outro, que teimava em tomar a frente. Eles não ouviam a música de igual maneira – ninguém a ouve, pensando bem – e eram incapazes de ceder.

Eu sempre acho que o tango é uma retrato da vida a dois. Você precisa aprender a confiar. A esperar. A ceder. Precisa valorizar o que tem. Ocupar o espaço que lhe cabe, não mais – não menos. Precisa apreciar a música da vida, equilibrar-se no metro quadrado e seguir, quase de olhos fechados. Dançar tango é encaixar-se; a vida a dois, também.

Por isso, hoje, eu não danço mais tango, só olho, aprecio e suspiro. Para encaixar-se é preciso moldar-se um ao outro, não há outra maneira.

Tenho uma certa inveja de quem dança tango bem dançado, no um metro quadrado que lhes dá a vida. Com certeza eles aproveitam bem mais a música, do que esses afoitos, feito eu, que só entendem por válido limpar o salão. Toda a vez que eu acho que vou passar para a próxima metade do espaço, a música, essa linda coisa, acabou.

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