A vida adaptada ao caos

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Depois de muito pedido, resmungos e infestações de cupins, tomei a brava iniciativa de trocar o armário do quarto. O que na prática significa fomentar o caos.

Tiro tudo de dentro: roupa, caixa com treco, caixa com trequinhos, com recortes de jornal. Os livros que ocupavam a estante lateral precisaram sair à reganha dentes, e os originais sobre a porta, preguiçosos e empoeirados, também. Tudo foi realocado provisoriamente na sala, do jeito que deu, que é de jeito nenhum, como bem sabe quem já passou por isso. A gaveta das meias, das calcinhas e das roupas de ballet, também. Minha casa, que costumeiramente é o caos adaptado à vida, transformou-se na vida adaptada ao caos.

Armário velho desmontado e já na garagem, liga a empresa de móveis: deu problema – claro – o armário novo molhou – com esse tempo é o mínimo – e o novo armário só chega em dez dias.

O QUÊ?!

Olho para a mesa cheia de papéis, o corredor com uma pilha de livros, o quarto de mamã cheio de roupa de baixo e tenho um piti por telefone, piti, aliás, justificado. Esbravejo. Tenho vontade de ser mal-educada, muito mal-educada, aquele tipo de mal-educada que marca para todo o sempre, amém, a vida de um vendedor.

Depois a gente vai se acostumando, eu acho, e um dia o caos não tem mais cara de caos. Olhando para as coisas que se amontoam aqui e acolá, ouvindo o eco fino que se formou no quarto, vem a sensação de que a minha vida não cabe em mim. Dá uma vontade louca de se livrar de tudo, doar os livros para a biblioteca, os trecos para alguém que goste deles, isso pra lá, isso para cá, essas memórias, se não cabem na memória, não servem para coisa alguma além de juntar pó e traça…

Ô tentação.

Ela ainda está por aí, rondando velhos originais que jamais serão revistos ou editados, bijuterias que não uso e bibelôs para os quais não olho. Tem aquela roupa que eu nem lembrava mais. Pra que tudo isso?

E dá para entender porque saímos da vida sem levar nada. O que não dá para levar no coração é, simplesmente, sobra.

Pena que eu ainda sou ocidental demais para entregar o bilhete azul para cada coisa que ainda ficará entulhando o armário novo – quando ele chegar. No bilhete estaria escrito: “Vai com Deus. Com amor, Simone”.

Eu seria tão mais leve, Senhor, tão mais leve, que talvez saísse por aí, flutuando feito um balão pelos céus do mundo.

E talvez aprendesse a voar.

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