Sem filtro

11800843_940086262724307_1003969088_o

Foi no sítio do padrinho Bráulio.

O padrinho é um senhor de idade. Ontem, comemorou 80 anos. É um sujeito alto e gostava muito de dançar. Imagino que ainda goste, mas agora está preso a uma cadeira de rodas. A filharada, os netos, alguns amigos e alguns parentes, se reuniram ontem para desejar-lhe felicidades, muita saúde, muita alegria. A gurizada, que da última vez era criança mesmo, agora já virou adolescente. Não demora, os meninos de ontem estarão falando comigo desde uma altura maior do que a minha cabeça que, convenhamos, não ganhará o céu por conta da extensão das minhas pernas. Em todo o caso, essa gurizada tinha ido à casa grande, provavelmente acessar à internet e jogar alguma coisa no tablete ou no computador. Nem posso criticá-los, eu também gosto de jogo eletrônico.

Mas ontem, não. Ontem eu fiquei feliz de não estar jogando ou de não estar entretida nas linhas de algum livro. Ontem foi especial.

Um arco-íris veio visitar o sítio.

Coisa infantil de se dizer, jeito infantil de olhar. Um arco-íris não “vem”, um arco-íris se forma, é o que me dizem. Enfim, não vamos discutir: o arco-íris veio e pronto.

Ele se formou acolá, daquele jeito que eles se formam: primeiro uma tênue fumacinha colorida, que mal e mal se adivinha. As cores vão se consolidando e, dependendo da garoa, da posição do sol e da abertura das nuvens, forma a ponte ilusória, ou não. Esse formou. E se colocou bem ali, do outro lado do açude que anda barrento por conta das chuvas. De ponta a ponta, todo ele dentro do sítio, na nossa frente. Cada vez mais claro, as cores cada vez mais brilhantes e definidas, um arco-íris como eu nunca tinha visto igual. A garoa que servia de lente para o sol se abrir em leque de sete tons veio se deslocando em nossa direção, nos alcançou miúda.

O arco-íris andou com ela. Veio se aproximando, um portal intangível, feito de água e luz. Parou há uns trezentos metros de nós.

E um pouco à frente dele, o sol começou a desenhar outro arco. Era tão pouco visível, que eu só o percebia quando não o olhava de frente. Uma fímbria de cor diante do outro, forte e mágico.

Todos os adultos que ali estávamos, nos voltamos para ele. Alguém trouxe a cadeira de rodas do meu padrinho para a estradinha de onde podíamos vê-lo. Tiramos fotos. Selfies. Postamos na rede. Durante os minutos em que ele estava ali, diante de nós, ficamos comentando redundantemente o bonito que ele era – mas era impossível não dizer, mesmo correndo o risco de ser repetitivo. Que lindo. Que forte. Que cores. Completo. De chão à chão. O ouro enterrado. Os gnomos trazendo o pote de ouro mais para perto, enquanto ele se deslocava. Risos.

Arco-íris. Não é exatamente uma raridade, mas sempre é doce. Um presente, talvez. Uma visita. Um acaso. Não importa. Arco-íris. E todos nós estávamos lá para ver.

Sem filtro algum para enfeitar. O que é verdadeiro não precisa disso.

Anúncios

2 comentários sobre “Sem filtro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s