Google Glass

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Sou uma das órfãs do Google Glass. Lembra? Aqueles oculozinhos metidos a besta, que a Google ia colocar a venda, mas que terminou desistindo.

Uma pena. Eu era candidata a comprar um. Estava loucamente disposta a me endividar para ter uma coisa daquelas, feita para registar o momento. Eu queria, sabe, porque às vezes a celular não é uma boa. Não é rápido o suficiente. O tal do óculos já ia estar ali na frente do nariz. Era só dar o comando e a coisa ia fotografar o instante.

Porque era isso o que eu queria fazer. Tem tanta coisa bacana que merecia ser imortalizado num chip, distribuído para todo o mundo… Por exemplo: sabe o que acontece depois de dias e dias e dias cinzentos, em que o céu tem cara de velho grisalho e ranzinza, naquelas tardes em que o sol aparece, as nuvens se vão, o céu ficar azul de novo e a temperatura sobe um tanto? As pessoas sorriem. Nas ruas, nas cidades, nas praças, elas sorriem para a gente, o perfeito desconhecido. Elas olham no olho. Os lábios se repuxam para cima num gesto afável. É um prazer receber um sorriso de graça, na rua, de uma pessoa que você não conhece. Não precisa dizer “oi”, não precisa abraçar, nem fazer de conta que te conhece de algum lugar. Só precisa ser natural e espontâneo, e é isso o que acontece quando as nuvens se abrem e o sol dá as caras. Eu gostaria de guardar sorrisos assim.

Eu também queria um treco daqueles porque às vezes estou indo de carro, ou na caminhada quase diária, e vejo uma coisa bacana. Um buldogue, em um carro, debruçado na janela do passageiro me paquerou hoje pela manhã. Ele ficou me olhando, enquanto o carro ia embora. Foi legal a troca de olhares, porque a gente se revela interessado mas não se compromete a nada, nem a trocar o número do WhatsApp, que, para quem não sabe, é  número do seu telefone. Ou seja, passou o número do Whats, passou o número do telefone, depois não tem como choramingar.  Enfim: o totó me olhou, eu olhei o totó, achei ele um fofo, mas as espécies nos separam. Mas se eu tivesse um treco desses no nariz, poderia ter fotografado a sua cara cinzenta, quadrada e querida.

E seria bom também, para guardar aquele momento especial: bem-te-vis namorando na minha sacada, beija-flores sugando a água, o gato cochilando ao sol, as crianças rindo, essas coisas que me fazem sentir prazer em estar viva. O problema é o verbo “guardar”. Porque é bem isso, a gente “guarda” numa pasta, acha que tem a felicidade a salvo e depois nunca mais olha para ela. E esquece.

Pois é. Parece que no fundo é um “ainda bem” que a Google desistiu do Google Gass. Guardar essas coisas boas na memória é a única maneira de acessá-las de imediato, sem precisar de uma interface que, vai ver, é capaz de dar problema. Não importa que aos poucos essas pequenas alegrias se desmanchem, soterradas pelo passar dos dias.

No fundo, o que fica é o que importa: a sensação de que um sorriso basta, o entendimento de que beleza é a gente que vê, e a certeza de que alegria é possível. Pelo menos naquele vago instante em que dura a lembrança.

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