Novela velha

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Então… dias depois, consigo sentar diante do PC para escrever. Esfrego as mãos, animada, alongo os dedos. Foi uma semana cheia. Falo sobre o quê? Sobre a violência que levou mais uma vida sem nenhuma razão? Não, muito batido. E além do mais, desde quando a violência tem razão?

Ah, já sei: o panelaço de ontem. Estava eu sentada no deck do restaurante de pasteis e, de repente, entre uma frase e outra da conversa, comecei a ouvir aquele alarido vindo dos edifícios chiques da subida do morro. Edifícios onde nada falta, diga-se de passagem… hum… melhor não. Não posso falar mal de quem se sente roubado pela crise instituída. Para muitos deles, é a primeira crise. A primeira vez em que o aperto no cinto não vêm da ordem do pai ou da mãe. Para quem é da minha geração, sei lá, é tanta crise que a gente já perdeu a conta. Ficou cínico, eu acho. Não acredita em mais nada, nem mesmo em panelaço. Bom, eu não acredito. Mas quem se sente roubado tem o direito de reclamar? Ora, se tem! Este é um país democrático. O simples fato de as pessoas baterem panelas na janela de casa durante o programa do partido que no momento ocupa o governo é uma conquista tão grande que eu ouço e penso: grandes dias, os nossos! Fosse isso há uns 25 anos atrás, ia ter um monte de gente se explicando nos porões da ditadura nesta madrugada.

Fazer eu o panelaço? E posso? Fosse hoje, 25 anos atrás, não estaria sentada em um deck comendo pastel e conversando com mamã, porque não teria um único real no bolso para fazer isso.

Então, panelaço, deixa eu ver… não, não dá. Muito complicado. Gosto de coerência.

O triste aniversário da bomba atômica, então? Não… bem ou mal, bombas atômicas saíram de moda. Ninguém mais parece preocupado com a possibilidade de um confronto que aniquile a vida do planeta. Isso inclui não se preocupar com a relativa facilidade com que os grupos de terroristas poderiam por as mãos em um artefato de “baixa potência”. A gente prefere se preocupar com, sei lá, o zoológico de pedras marcianas. Você não sabia? Já visualizaram de tudo nas fotos tiradas por lá: lagartos, esquilos, Nossa Senhora. O mais recente é uma espécie de caranguejo com nove patas. Tudo bem, desde que não tenha oito, eu me sinto em casa. É divertido olhar as fotos das pedras marcianas. Procurando bem, você acha até o rosto da Angelina Jolie. É como olhar nuvens: aquela se parece com um elefante, aquela com uma zebra. Toda a Criação mora em nossos olhos e só a gente é que não percebe.

O que me lembra do meteorito. Meteoro. Bólido. Coisa no céu. Coisa verde e fumegante que, por certo, passou ao alcance da minha mirada e eu não vi – para variar, estava olhando para o outro lado. Enfim, a coisa veio, incendiou, fumegou, passou e, francamente, ouvindo os relatos, dá a impressão de que fez um tur pelo Prata: Buenos Aires, Montevidéu, Uruguaiana, Tramandaí, Porto Alegre, Estância Velha, Ivoti, mas não nessa ordem. Enfim, ninguém falou mais sobre ele. Caiu, se desintegrou, não se sabe. Para mim, viu o panorama que se desenhava cá embaixo e arremeteu. E seja lá o que for que tenha sido, já se foi, também, dos noticiários.

Enfim, já se sabe para que serve jornal velho: embrulhar frutas na feira. E é nessas horas que eu penso que o virtual é ainda mais banal do que papel usado, porque nem para isso serve. Fica apenas na retina aquela impressão amarga de dejavu e a esperança de que as coisas não voltem a se repetir.

Porque, sinceramente, às vezes eu tenho a impressão de ter ligado a TV na hora do repeteco das novelas antigas.

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