No inverno, a primavera

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Estou pensando em investir em uma bicicleta. Em ir para a praia. Viajar, tirar férias. Tirar férias de mim mesma, até, isso sempre é uma boa ideia. Se nem o mundo se leva a sério, porque eu deveria fazê-lo?  Eu poderia fazer uma reserva em uma Maria, talvez, sempre quis me chamar “Maria”. “Maria Terra”. Ou “Ana Lua”. Poderia ser ruiva, de cachos. Ter olhos verdes, só para experimentar, porque estou satisfeita com os meus azuis. Já pensou, viver alguns dias em outro corpo, ter outra vida? Poderia ter novos amigos, outros horários, talvez dormir menos. Uma insônia produtiva viria bem de vez em quando, mas eu não, de noite eu durmo como uma marmota no inverno. Inverno, aliás, estação do ano que pelo visto desistiu de nós.

Este ano, o inverno se vestiu de primavera.

As plantas enlouqueceram. Galhos secos se rivalizam com brotos recentes. Flores brotam onde deveria haver, no máximo, folhas. Em questão de dias, os rosas e os amarelos cobriram as copas que deveriam ostentar verde antigo.

Os passarinhos estão perdidos. Ainda não decidiram se devem inventar os novos cantos da estação – passarinhos sempre inventam novas melodias para as novas estações – se brigam com os seus pares pelo território e pelas fêmeas, se namoram, se dão de comer aos filhotes, ou se fazem isso tudo, ao mesmo tempo. Estressados, esses passarinhos.

Minhas roupas de inverno bocejam, entediadas, dentro do armário. As camisetas e blusinhas estivais se assanham todas, tentando chamar minha atenção no armário. Sim, eu confesso que as passei para a prateleira mais alta, onde não as vejo, e que algumas delas sentem vertigem, mas estou temerosa em trocar tudo de novo para somente alguns dias de calor. O casaco novo que fiz, de lã, pesado, quente e sisudo, foi para a lavanderia sem ser usado. Deve achar que a vida é moleza. E eu não sei se algum dia haverá frio o suficiente para usá-lo.

Daí que devaneio. Vou à loja de bicicletas e pesquiso preço. Sonho com uma rede esticada e em reservar um cantinho, um violão, um amor e uma canção em algum lugar do mundo. E olho para fora e vejo os ganhos secos da árvore da esquina.

Para o verão, estou pensando seriamente em adquirir um par de esquis ou um camelo. Ainda não decidi, mas com os extremos de maluquice do quadro geral climático, talvez o mais sensato seja comprar os dois. Por via das dúvidas.

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