Especialmente maligno

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Feito isso: mamã decidiu trocar uma das estantes de livros da sala. Do nada, tenho de largar tudo e tirar os livros do lugar, limpar, verificar a saúde das traças (sempre tem, e como tem!), tossir, espirrar, passar o espanador de pó. No susto, vampiros são despertados de seu sono vespertino, fantasmas perturbados emergem do fundo da poeira e me encaram com a expressão assustada e acusadora, magos praguejam feito estivadores e menestréis perdem o compasso.

A estante nova, cheirosa, madeira clara, de veios dourados, toma o lugar da velha e carcomida estante provisória que já ia se tornando vitalícia. Uma cerinha aqui, veneninho contra as traças e cupins ali, passa um pano no chão e pronto, lá vão de volta as minhas assombrações. Lobisomens voltam a cochilar nos cantinhos, alguns extraterrestres fazem o exame molecular da casa nova, bruxas se acomodam com resmungos de velhas – centenárias que são. Os clássicos se predispõe a proteger aquele livro velhinho, sem capa e sem histórico de imortalidade, mas que eu gosto tanto de ler. Muitos títulos ganham uma passagem só de ida até a biblioteca pública, aliviando a tensão entre os volumes e os pilares de madeira. Até as tábuas de sustentação parecem mais leves, mas eu sei que é só impressão. Mundos acabam, universos se recriam. Dá gosto olhar a biblioteca arrumadinha, mesmo que eu tenha passado o tempo todo me perguntando para que guardar tudo isso: em uma estante pública estariam muito melhor. Seriam lidos com regularidade, expulsando as malditas traças das páginas em branco. Enfim, ainda não tenho coragem. Desprender-me das velhas assombrações é ter de encarar o mundo do outro lado da porta de vidro da sacada.

E esse é um mundo que se abre lá fora é mais do que assustador. É perturbador. Perturba a sanidade mental saber que alguém simplesmente jogou no lixo um bebê, cujo corpo foi parar em um lixão em Santa Maria. Melhor não fazer juízo de valores sobre a pessoa. Talvez a mãe estivesse em choque.

Já na praia, lá onde se diz que a vida é melhor e mais tranquila, alguém  quis se livrar de um cão doente, então o enterrou vivo na areia – imagino que o raciocínio fosse “ele já ia morrer mesmo…” o que se rivaliza com a ordem de fazer avançar um trem sobre um cadáver para não atrasar as pessoas que iam nos vagões. O que está morto, morto está. E não me venham dizer que não se pode comparar um cão à uma criança. Não é a espécie que me assusta, é o fato em si mesmo. A falta de humanidade. De empatia. De compaixão. Sobretudo, de compaixão.

A realidade supera, em gênero e número, quaisquer das ficções que tenho ali. Nas ficções, ao menos, há uma razão. Há um porquê para a crueldade e a ausência de sentimento humano. O cara é um demônio; foi abduzido; foi tomado pela matéria escura que compõe o Universo. Mas não é humano – porque os humanos não fazem isso.

E depois, dizem que o brasileiro é o povo mais fervoroso que há. Mentira. O brasileiro não crê em nada, nem em Deus, nem nos orixás, nem nos homens, nem na morte e tampouco na vida. Se acreditasse em uma vírgula dessas ideias não veríamos as páginas dos jornais repletas de histórias que fariam torcer o nariz ao mais sanguinário vampiro, ao mais despudorado tarado, ao mais frio dos assassinos.

Olho para a minha estante de assombrações, monstros e afins. Dá vontade de me aninhar dentro dela, nos braços de algum parágrafo especialmente maligno. Pelo menos ele, eu sei, não é de verdade.

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