Água barata

garrafinha

Acompanhei as notícias das passeatas do fim de semana pelos jornais de hoje. Nunca vou à passeata alguma. Não sou contra nem a favor, muito antes pelo contrário, acho que todo mundo tem o direito de se manifestar. Mas eu sempre fui minoria, então me acostumei a nem me dar ao trabalho de pedir que alguém me escute. Ademais, sou atrapalhada. Vai que eu apareça lá no meio daquele povo com a camiseta da cor errada, só porque era a única limpa que eu tinha à mão? Pois é…

Em todo o caso era domingo, dia de levar mamã para passear. Ver os ipês florindo fora de época, essas coisas. Ninguém à vista. Pelo menos nas ruas pelas que passei, havia pouca gente e manifestante não vi nenhum. No Face, um amigo postou uma foto da Praça Punta del Este, aqui em Novo Hamburgo, às duas e meia. Nem viv’alma, só para poder usar essa forma que eu acho tão sonora, com o apóstrofe no meio. Mas depois, em torno das cinco, já havia um povo de verde e amarelo e cartazes nas mãos.

Fiquei olhando. Fiquei pensando. Tanta crise, tanta crise… mas um bolo de gente de camiseta da seleção. Não sei se é a camiseta oficial. Se for, baita crise esta, em que o pessoal consegue comprar um pedaço de malha colorido pelo preço de um sapato social! Também tinha cartaz feito em gráfica, padronizado. Em São Paulo uma faixa, gigantesca. Sei lá, sou do tempo do Collor. Naqueles dias, o pessoal ia com cartaz feito em casa mesmo, cartolina e pincel atômico, porque dinheiro, ninguém tinha para gastar nessas produções. A gente economizava o centavo, até. Mas o tempo passo e até as passeatas evoluem.

Agora, o que me deixou boquiaberta, mesmo, foi o preço da garrafinha de água. Saiu no jornal local: garrafinha custando módicos R$ 3,00. Sério, produção? Três pilas uma garrafinha de água? Tá mais cara que a coxinha de frango que andaram vendendo em Porto Alegre, à R$ 2,00. Sem dúvida, é o sinal dos tempos: água mais cara que o frango. O H²O que se supunha um bem universal e interminável, custando seu peso em ouro. Verdade seja dita, quem acha que água é um bem universal nunca andou pelo deserto do Sahara, nem pelo Salar do Yuni, daí a ideia confundida de que tudo o que tem na sua casa é algo que existe na casa de todo mundo. Comida, é um bom exemplo. A casa, em si mesma, outro.

Seja lá o que for, fiquei chocada. Quem, em sua sã consciência, venderia água à R$ 3,00 para um povo que está protestando pelo que eles acreditam ser o bem geral da nação? E quem, em sua sã consciência, paga três pilas por uma garrafinha de água?

Não, não me responda. Nem uma pergunta, nem a outra. Eu sei a resposta e sei que você também a sabe.

Dizem que no dia 7 de setembro haverá outra manifestação. Claro, desde que o feriadão deixe. Por via das dúvidas, se você for, leve quatro reais para a água.

Sabe como é, a lei do comércio é implacável: quem procura costuma achar. Água barata, eu quero dizer. Água barata.

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