Ágora de concreto

praça
http://www2.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=533944

Tem uma praça em particular, aqui em Novo Hamburgo, que me fascina. Ela era um espaço claro e aberto, com uma vegetação bonita, antes da construção do Trensurb. Agora, com a estação e os trilhos elevados correndo por cima dela, tornou-se um motivo de distensões nasais, motivadas pela continua torção de nariz das pessoas que passam por ela.  O local perdeu o status de  espaço aberto, já que agora tem telhado. Foi rebaixado ao nível do asfalto, onde antes elevava-se prazeirosa. Não há uma única planta vicejando por ali, nem mesmo ervas daninhas, apesar dos planos mil de recuperação de seus canteiros – espaços de terra seca demarcados por quatro ângulos retos, desenhados por meios-fios e que servem, em muitos casos, de lixo público (sabe-se que caminhar com lixo na bolsa, até o próximo descarte faz mal à coluna cervical – e é óbvio que isso é uma ironia, caso você tenha alguma dúvida).

As colunas que sustentam os trilhos, troncos de concreto cinza, ganharam luzes e pichações. E a despeito da polícia que de vez em quando aparece por ali, de azuizinhos fazendo a ronda à Brigada Militar fazendo a revista  em alguns transeuntes mais ou menos conhecidos nas delegacias, a Praça Punta del Este – que esse é o seu nome – é palco de vários assaltos.

Contudo, quando a gente olha em perspectiva, se dá conta de que ela é o espaço mais democrático da cidade. Lá se reúnem artesãos e vagabundos. Transeuntes, pessoal sentado, fazendo nada e olhando o movimento, ladrões e policiais, aposentados, crianças aprendendo a andar de bicicleta, senhoras com suas bolsas, gente ouvindo o celular, pessoas que se encontram e conversam. Na Punta del Este tem batedor de carteira, gente curtindo a ressaca, eco de buzinas e aceleradas, o som do trem, lá em cima, risadas.  É onde se reúne quem joga capoeira, quem dança street, imigrantes vendendo relógios de dourado barato e bugigangas, índios com seus filtros dos sonhos ultra-coloridos, psicodélicos. Me pergunto se eles sabem a história desse objeto de moda. E quando o povo quer se reunir para sair em passeata protestando, esses porque são a favor do governo, aqueles porque são contra, é na Punta del Este que se reúnem, tornando o chão de concreto cinza num lago colorido, às vezes verde-amarelo, às vezes vermelho, às vezes o vermelho é porque o Inter ganhou uma partida importante, às vezes é o azul, branco e preto, às vezes é enxurrada de água, outra de gente com bandeiras, folhetos e fé na democracia.

Sejamos francos, a Punta del Este é a mais feia e injuriada das nossas praças. E é a mais democrática, no sentido real de democracia, de espaço público. Tudo o que ela precisa é de um pouco de atenção e respeito de nossa parte. Toda a cidade tem a sua Ágora. Que não é construída, nem prevista. É ocupada, simplesmente. Eleita pelo mais popular que há: gente. Nós mesmos.

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