Química

abstrato

Então, pronto, a pátria está salva: inventaram  um medicamento que está sendo considerado o “viagra” feminino. E, claro, como é pílula é destinada às mulheres, é rosinha, assim como seu “parceiro” químico é azul.

Dá tanto o que pensar, nossa Senhora! Começo encaraminholando: já avisaram que os dois medicamentos atuam em coisas diferentes. O masculino atua na circulação sanguínea e o feminino no sistema nervoso. Ou seja, é um afrodisíaco mesmo, de verdade, não é morango com champanhe, nem chocolate com canela, não mesmo, nada disso.  Nada de superstições bobas, como aquelas cenas de lareira acesa, um beijo carinhoso levando a outro. Trata-se de ciência mesmo, de verdade, química que não é as bobagens das peles arrepiando, ou o perfume impregnado nas roupas, horas depois. Não. Isso daqui é Química com “Q” maiúsculo. Pura medicina moderna.

É claro que eu sei que se trata de um medicamento – aliás, como o tal do Viagra – e que será recomendado à mulheres com problemas de libido. Problemas, não enxaqueca fictícia, falta de tesão porque trabalhou o dia inteiro e não está a fim de outra coisa a não ser de colocar o pijama velho, depois do banho quente, e ficar olhando para a TV sem ver, para tentar esquecer o emprego sem graça, a grana curta, o carro estragado, o celular sem bateria ou o amante/marido/namorado que está na mesma situação laboral, econômica e de falta de paciência, e que prefere resolver as coisas de maneira objetiva e sem preliminares, coisa nenhuma, que amanhã o despertador toca cedo demais e nunca dá tempo de a gente dormir o suficiente. Nada disso é problema, tudo isso é o cotidiano.  Que, convenhamos, é justamente o problema de todos nós.

Alguém aí tem alguma dúvida que passada a primeira leva de mulheres comportadas, decididas a ter uma vida normal e prazeirosa junto de seus companheiros surgirá uma leva de malandros com uma pílula azul em um bolso e a outra rosa em outro, dispostos a tirar do sério a primeira garota que aparecer na sua frente? A primeira, mesmo, sem nome, sem identidade, sem vontade própria, apenas um corpo que será devidamente desequilibrado pela mesma Química que em outra vida será a salvação.

Ah, quem dera que o ser humano fosse capaz de desenvolver uma coisa que fosse apenas boa. Que apenas salvasse a felicidade, sem deslizar pelo espaço dolorido da Lei de Gérson e da incapacidade de algumas pessoas de ouvir um simples “não”.

Aliás, desculpem, parece que essa “coisa” existe sim. Mas ninguém mais acredita nela. Parece fácil demais, mas na verdade é de uma complicação inenarrável, custando tempo, paciência e dedicação. É a química perfeita, que faz arrepiar a pele e dá ao morango, ao chocolate, à simples água da torneira, estatus de afrodisíacos infalíveis. É um tal de “amor”. Anda em falta no mercado.  É caro demais. Abstrato demais. Frufru, demais. Cor de rosa, meloso, tudo o que já se disse sobre ele e tudo o que ainda se dirá: a pura verdade.

A verdade é que o Amor exige que empenhemos a nossa alma. Que sejamos capazes de abrir mão de coisas e confortos, que sejamos capazes de ceder espaço, que tenhamos paciência com o outro. E que às vezes, apesar de todos os esforços e sofrimentos, não resulte em química, apenas em uma fogueira ardente e solitária, sem ninguém que queira compartilha-la. Faz parte do que se chama “liberdade”. Não há Amor sem liberdade, como não há reação química sem no mínimo duas substâncias que interajam entre elas. Daí que é sempre mais fácil comprar o desejo. Aliás, não é assim que tem sido nossos dias? Tudo no cartão, no cheque especial, tudo no empréstimo bancário.

Inclusive a tesão, sem a qual, diziam, não há solução.

Agora há.

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