Dois por um

cachorro

Que a insegurança urbana é uma realidade de nosso cotidiano violento, ninguém duvida. Entra dia, sai dia, as notícias assustadoras nos sacodem pelas manhãs: chacinas, assassinatos, latrocínio. Um autêntico sufoco.

Daí que ninguém pode culpar as pessoas que, acossadas por todo o tipo de medo, resolvam se proteger. As casas viraram bunkers, rodeados de cercas e muros típicos de prisões ou coisa pior. Nos portões, porteiros eletrônicos, leitor de íris, reconhecimento de voz. Pura Ficção Científica.

Algumas pessoas apostam no “tudo em um” e compram cães. Conheço uma casa, aqui perto, que era protegida por dois enormes rottweilers. Pretos. Mal encarados. Com uma boca capaz de arrancar com uma bocada um pedaço da minha canela, fora a fora, sem direito à contemplações – mas também, verdade seja dita, minha canela não é grande coisa. Os latidos dos bichos ecoavam pela noite escura, amedrontadores. Se a gente entendesse cachorrês, ouviria, talvez, coisas prosaicas: “olha o gato da vizinha!”. Ou, quem sabe, “aquela sombra não estava ali ontem”. “O caminhão do lixo! O caminhão do lixo está passando! Olha o lixeiro aí, gente!”, como se alguém pudesse ignorar o ruidoso dinossauro mecânico que é o caminhão do lixo. E, é claro, o costumeiro “ai, se te pego…” dos totós de grande porte.

E toda vez que eu passava ali, lá estavam os grandes potes de ração canina. O pátio… melhor não comentar. Cachorro grande, come muito e a continuação todo mundo sabe como é. No sábado, não dava outra: para limpar, mesmo, só com mangueira. A conta devia de ser respeitável: água, ração, veterinário. Na verdade, não há sistema de segurança que não signifique um gasto.

Contudo, veio a crise. A Crise, melhor dizendo. Imagino que foi preciso conter gastos, diminuir despesas, economizar mais. Os rottweilers saíram de cena. Um belo dia, passei diante da cerca e os gigantescos totós tinham dado lugar a um diminuto lulu da pomerânia.

Conhece o bicho? Fofo. Pequeno. Fofo. Carinha de interessado. Fofo.  O pelo foi prejudicado por um corte, como direi?, personalizado: rebaixaram toda a macia cabeleira de pelos, a um tapete de veludo fofo, deixando só a carinha com uma espécie de juba. Suponho que deveria deixar o bicho com um expressão leonina, mas só conseguiu deixa-lo fofamente engraçado.

Este é o bicho. Deve comer pouca ração, ocupa pouco espaço, pouco veterinário e faz pouco cocô. Fiquei, inclusive, tentada a descobrir se ele era pouco cachorro. Sabe? Fiquei tentada a descobrir se ele era tão delicadamente fofo, quanto parecia.

Olho no olho, titubeei. Lembrei nos dois rottweiler. O bicho olhou a minha canela e voltou a me encarar. Estremeci. Um substituto sempre está interessado em manter o emprego, não está? Em ficar com a vaga do titular…

Sei lá. Não por ser menor, um sistema de segurança é menos eficaz. Por via das dúvidas, passei ao largo.

Trocar dois rotweillers por um lulu da pomerânia, vou te contar. A crise tá fogo!

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