Querido Aylam:

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Soube da parte triste da tua história através dos meios de comunicação. Não posso mais do que lamentar a tua sina. Sabes, Aylam, sou de um país onde cães são tratados como gente e chamados de “filhos” por algumas pessoas, ao mesmo tempo em que alguns membros do poder instituído – poder que nós, o povo, lhes demos – se acham no direito de roubar o dinheiro que pagaria a comida destinada às escolas e à crianças como teu irmão. Por aqui, no País das Contradições, estão todos consternados pela tua sorte, tanto quanto o resto do mundo. O meu Facebook está cheio de fotos do teu corpinho ainda molhado, mas já sem vida; de gente lamentando o teu destino; de gente dizendo que isso não passa de uma história piegas, que horrores como este acontecem há anos e até agora ninguém dava maior importância; que horrores como este acontecerão ali adiante no Futuro, e ainda ninguém fará nada. Ou poucos farão alguma coisa – pouca, diante da tragédia humanitária. Nunca será o suficiente enquanto não aprendermos a viver em paz.

Eu acho que todos eles estão corretos. Os que choram por ti e os que torcem o nariz. Porque mesmo estes últimos sabem: dói demais perder a vida de maneira tão estúpida.

Mas o que eu queria era  te dizer que ouvi agora à pouco, no rádio, um resumo da história do teu pai. Eu não sei se é de fato a história dele, mas foi o que me contaram: que teu pai vinha tentando sair da Síria há tempos. Que vocês queriam mesmo era ir para o Canadá, onde os teus tios estavam dispostos a dividir a casa deles com vocês. Ouvi que em uma das tentativas anteriores, teu pai foi pego por um dos grupos que mantém a Síria como zona de confronto. Que na ocasião, teu pai quase morreu.  Os homens do grupo arrancaram todos os dentes que ele tinha na boca. E que depois de ficar bom, ou um pouco melhor, teu pai descobriu essa passagem fatídica em um bote de borracha, onde embarcou contigo, teu irmão e tua mãe. Que o bote fez água, que as pessoas se apavoraram, que alguns ficaram de pé, e o bote virou. E que mais gente morreu, embora seja a tua partida a que tenha chocado o Mundo.

Soube que finalmente, depois de tudo isso, o Canadá ofereceu asilo a teu pai (e que mal isso me caiu! Abomino os prêmios de consolação. Eles nada mais são do que ironias do destino). Contudo, teu pai recusou o oferecimento e está voltando para a Síria com vocês. Para enterrar seus corpos e depois esperar que seu próprio corpo seja enterrado ao lado do de vocês, quando chegar a sua hora. Sabe, Aylam, acho que teu pai é um dos homens mais dignos de que se tem notícia.

Perdoa que eu te diga, Aylam, mas por mais que me entristeça a tua dura partida, mais ainda me entristece a longa vida de teu pai. Daqui para diante, os segundos, as horas, os dias, tudo terá o mesmo tamanho: o do vazio. Mais do que solidão, mais do que depressão, mais do que qualquer coisa, para além do que posso imaginar, imagino um vazio. Um nada. Perdoa, Aylam, se te digo que mais me comovem os dentes perdidos de teu pai; o esforço de suas mãos por segurar as tua; o pavor na escuridão e no frio que marcaram aquela noite e que agora moram no coração de teu pai. E no coração de todos os pais que tendo tentado, não chegaram à terra firme, ou souberam que seus filhos, talvez ainda adolescentes, ou jovens, ou, até, adultos, tampouco conseguiram chegar terra firme. Os filhos, Aylam, são o que permitem a um homem experimentar o amor verdadeiro. Arrancá-los da vida de uma pessoa é roubar um pedaço da alma delas.

Te desejo, Aylam, que durmas como dormem todos os meninos mortos:  os famintos. Os que portam armas. Os que são bombardeados por artefatos  inteligentes. Os que pisam em minas. Os que trabalham em minas. Os que fazem parte da cadeia do tráfico de drogas. Os que são surrados. Os que são estuprados. Os que não tem acesso à saúde. Os que nos olham em fotos, fantasmas que nos lembram de nossa incrível capacidade de negar ao Outro um lugar ao Sol, mesmo vivendo em um planeta cheio de recursos. A vocês, que são tantos quanto as conchas do mar, desejo que a terra vos seja leve – mas que vossas mortalhas pesem em nossas consciências como pedras, para sempre. Vocês descansarão em paz. Nós continuaremos a procurar por ela.

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