Caleidoscópio

caleidoscópioSete de Setembro. O rádio ligado despeja informação. Desfiles. Protestos. Feriado. Fico pensando que a realidade é como um caleidoscópio, como uma superposição de realidades. Quantos Brasis há? O Brasil do campo, que na Expointer comemora um incremento de vendas de animais. O das cidades, onde a violência não nos deixa pensar em alternativas. O dos que ascendem de classe social à base de estudo, trabalho e dedicação inumanos. O dos políticos corruptos, que parecem viver não só em outro Brasil, mas em outro planeta.

Quantos Brasis? O dos índios, que sobrevivem, apesar de 500 anos de História. O dos brancos, que preferem ignorar outros povos, para poder, quem sabe, sobreviver à própria vergonha. O dos negros, que abrem espaço à força para sua própria versão dos fatos. O dos mestiços. Todos nós.

Tem o Brasil que sai às ruas para protestar, tem o que vai às ruas pular o Carnaval, apesar de tudo e de todos. Apesar do Mundo. Tem o Brasil dos torcedores de futebol, para quem nada é mais importante do que o time.  O dos que só querem se dar bem. O das mães. Dos pais. Dos que querem igualdade de gênero. O dos analfabetos e o de gente que lê quase um livro por semana. O da Amazônia, a mata, os rios. O do Rio, seus morros, seu mar e sua carioquês. O dos gaúchos, que resmungam contra os nordestinos reinventando sua própria história a cada ano, e dos nordestinos, que aguentam, estoicamente, as provocações.  O dos racistas que acham que não são racistas, que são torcedores, o dos jogadores que choram porque perderam um jogo – meu Deus! – de futebol, o das escolas que fecham por causa do tráfico.

Muitos Brasis. Só não encontro aquele em que me fizeram acreditar: o do povo amistoso, que prefere a festa à briga, que se não se entende parte para o samba, não para o braço. O país do futuro, onde todo mundo era igual, porque todo mundo era filho da Pátria Mãe Gentil e não fugia à luta.

Onde esse Brasil, meu Deus? Onde esse país que apaixonava só de olhar? No passado? Nas manipulações de massa? No imaginário popular?

Um dia, talvez, a gente volte àquele Brasil das canções de Bossa Nova, onde tudo terminava em um crepúsculo espetacular, ou em canções sertanejas onde a Lua nasce por detrás de verdes matas, e todo mundo sonha com uma casinha branca capaz de alcançar. E então, quem sabe, meu Brasil deixe de ser esse varão resmunguento e volte a sorrir. Não por ter enriquecido, não por ter “chegado lá”. Mas por poder levantar pela manhã de cara limpa e saudar o Futuro sem pressa de vê-lo passar.

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