Ironia motora

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Sou professora de ballet, então, eu achava que entendia alguma coisa de coordenação motora e concentração.

“Achologia”, como se sabe, é a ciência brasileira mais popular de todas.

Por exemplo: eu “achava” que não era interessante dirigir segurando uma caneca de café (ou chocolate, ou chá, o conteúdo fica a gosto do freguês). Note-se, eu não achava fora das possibilidades, e muito menos fora da Lei. Achava que “não era interessante”. Porque, vai que você precisa fazer uma manobra rápida para escapar, por exemplo, de ser amassado por um caminhão-cegonha desgovernado? Aí , na hora do aperto, não sabe onde por a caneca, que pode conter um líquido que ou é quente ou vai manchar a sua roupa. Aquele milésimo de segundo de dúvida pode ser indispensável para o caminhão-cegonha carregado e desgovernado se safar de ser arranhado e amassado pelo seu carrinho. Não sei, é preciso ficar de olho nos outros motoristas que sempre fazem coisas estranhas quando a gente está com uma caneca na mão e a outra na direção…

Eu também “achava” que dirigir enquanto atende ao celular fosse algo complicado de coordenar. Isso para não contar que dá multa, blábláblá, mas a gente sempre pode entrar com um recurso e isso daí não é problema. O problema é quando você está ali, de papo, a mão no celular, o celular junto da orelha – porque você é chique mas não tem Bluetooth no carro, ou, se tem, não sabe sincronizar a joça eletrônica com o seu celular, e nunca se lembra de perguntar sobre isso na concessionária. Coisa inútil, claro, porque basta tirar a mão do volante e atender o aperelhinho vibratório fofoqueiro indispensável no nosso dia a dia. Enfim, como dizia, “achava” que atender o celular fosse complicado de coordenar com o ato de dirigir. Com o fato de estar concentrada no trânsito. Aliás, essa coisa de estar “concentrada” no trânsito, dá licença! Os outros também precisam estar concentrados, poxa! Se eu estou na faixa da direita e cruzo para a esquerda, sério que não dá para perceber? Sério que é necessário ligar o pisca-alerta todas as vezes?  Se estou andando pela rua, os outros também precisavam ver quando eu chego no cruzamento! Não sou a única no trânsito! É bom que prestem atenção em mim, porque amasso os demais igualzinho aos amassos que os outros carros podem fazer no meu. É reciproco, entende, o trânsito é um troço reciproco.

Bom, isso era o que eu “achava”: que dirigir segurando uma caneca ou atendendo o celular era algo meio incompatível com a coordenação motora e a concentração da direção.

Aí, cruzo com uma moça. Bonita, radiante, falante. Gourmert. Como sei  que é falante, se o vidro da camionete que dirigia estava fechado? Ora: ela levava um papo incrível no celular que segurava junto à orelha. Sorria. Era uma conversa ótima!

E como sei que era uma gourmet consumada? Porque a mesma mão que segurava o celular junto à orelha, empunhava, também, uma caneca. Não sei qual era o conteúdo, mas devia ser muito gostoso para que não pudesse esperar para ser bebido. A mão direita, a motorista mantinha prudentemente no volante do automóvel, enquanto conduzia pelas ruas movimentadas com uma habilidade de dar nos nervos.

Celular e caneca ao volante, eu achava que não era possível, achava mesmo.

Não acho mais.

O trânsito local, vou te contar: cada dia, uma nova aula de coordenação motora, concentração e Deus-me-livre.

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