O Leitor em Perigo

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Em 2009 a editora Bertrand Brasil publicou em terras tupiniquins um livro de autoria de Tzvetan Todorov chamado “A Literatura em Perigo”. Me pergunto o que o célebre teórico da Literatura diria se se deparasse com uma situação como a da Literatura Brasileira para crianças da atualidade.

Começo: em maio deste ano, a organização da Jornada Literária de Passo Fundo informou, através da imprensa, que a edição 2015 do evento seria cancelada por conta da falta de verbas. A Jornada sempre teve o viés de formar leitores, coisa muito, muito, muito importante mas… no momento ninguém tem dinheiro para pôr em Cultura. Ninguém tem dinheiro para gastar com Literatura. Houve indignação entre os escritores e intelectuais gaúchos e brasileiros, aqueles que ainda se dão ao trabalho de gastar palavras e letras com os livros. Alguns autores capitaneados por Fabrício Carpinejar e Mário Corso, se alvoroçaram em organizar um crowdfunding para arrecadar um mínimo necessário para a realização do evento. A iniciativa, se bem chamou a atenção de muita gente e causou desconforto na Capital Brasileira da Literatura, não alcançou o seu objetivo. A Jornada não aconteceu.

Era só o início. Em poucos meses, os escritores envolvidos com o projeto “Autor Presente” do Instituto Estadual do Livro davam-se conta de que o projeto não ia se realizar neste 2015. Não apenas o IEL demorou em ter seu diretor nomeado pelo governo – como sempre que acontece uma troca de governo, aliás – como também submergiu em um silêncio do qual apenas agora, depois de uma troca de dirigente, parece emergir, pelo menos, com os eventos para a 61ª Feira do Livro da capital. O projeto, porém, com mais de quatro décadas de atuação junto às escolas, que ao longo desse período se arvorou na formação de milhares de leitores, não tem previsão de se realizar. Não por falta de importância, campanhas e disponibilidade dos autores, mas por falta de verbas. Ninguém quer gastar com Literatura. Ninguém quer gastar com Cultura. Um pouco adiante, outro baque: o projeto “Lendo pra valer”, mantido pela Câmara Rio-Grandense do Livro se pôs a buscar parcerias com editoras, tentando a sobrevivência desse projeto que, a exemplo do “Autor Presente”, proporciona encontros entre alunos leitores e escritores. Mas o “Lendo” ainda depende de verbas públicas que não sabemos se vão chegar. Está ameaçado.

Na metade da semana passada, o susto aumentou na forma de uma matéria pequena no jornal Zero Hora. A Petrobrás, mergulhada em escândalo após escândalo de corrupção, orçamentos superfaturados e não se sabe que demais falcatrua, periga retirar seu apoio financeiro à Feira do Livro de Porto Alegre, ameaçando a boa realização da parte Infantil e Juvenil da Feira, e justamente em um ano em que teremos como patrono um autor de livros infantis, juvenis, e poesia, o escritor Dilan Camargo. Obviamente, ninguém tem dinheiro para apoiar a Literatura. Ninguém tem dinheiro para apoiar a Cultura, a despeito dos bilhões roubados dos cofres públicos do país.

Agora, a tudo isso se poderia dizer que se trata, afinal de contas, de projetos escolares – e eu defendo a ideia de que a Literatura de gênero escrita por brasileiros precisa ganhar as livrarias e as ruas, saindo da seara escolar. Contudo, me parece claro que a despeito da importância de tais projetos, que ninguém ousa colocar em cheque com palavras, fica bastante claro através das decisões que envolvem o vil metal que os mantém, que formar pessoas capacitadas para o futuro não é coisa que goze de prioridade junto aos homens e mulheres que governam ou roubam este país. Que fique bem claro o verbo que usei: “formar”, e não “informar”. Ninguém duvida que o ensino brasileiro se esforça heroicamente na tarefa de informar os alunos da enorme quantidade de dados e signos que eles precisam dominar para bem adentrar a universidade e chegar ao término de algum curso superior. Ninguém duvida que é uma guerra dura contra mídias mais interessantes e chamativas do que um quadro estático e alguém falando, e que informação, ao fim e ao cabo, é algo que se consegue por moto próprio, desde que haja interesse. Por isso mesmo, “informar” não é o mesmo que “formar”, tarefa ainda mais gigantesca, que inclui, entre outras, a arriscada coisa de levar as pessoas a pensar por suas próprias cabeças e ouvir suas próprias consciências – e não seguir, cegamente, o que lhes dizem ser o certo, o errado e o duvidoso.

Contudo se você, leitor, pensava que o problema fica apenas nos mandos e desmandos governamentais, lamento informa-lo de que o buraco, como se costuma dizer, é bem mais embaixo.

Esta semana, a Somos Educação, conglomerado que envolve grandes editoras históricas do país, anunciou um remanejo no grupo ligado à editora Ática. O susto foi tal, que a Somos Educação veio a público, no Rio Grande do Sul através do Jornal ZH de sábado, para comunicar que ninguém precisa se preocupar. A editora não fechou as portas e seu maior sucesso editorial – a coleção Vagalume – inclusive, está de volta. Uma boa notícia, não fosse algumas declarações feitas por Mário Ghio, vice-presidente de conteúdo e inovação do grupo, em entrevista ao repórter Alexandre Lucchese do referido jornal. Cito: “A principal alteração (na editora) foi o fim do setor responsável pela publicação de livros de entretenimento – aqueles não vinculados à leitura em sala de aula.” (grifo meu).

Declarações como essa me fazem estremecer. Não sei se você está se dando conta do que acontece com a Literatura para crianças escrita no Brasil. É como se a frase acima fosse a ponta visível do iceberg que, como se sabe, mantém seu maior e mais funesto volume abaixo da superfície da água, e não vale apenas para a famosa editora citada: vale para uma enorme gama de casas editoriais que se habituaram a trabalhar em função de programas públicos de fomento à Literatura. A Literatura Infantil e Juvenil escrita no Brasil transformou-se em matéria escolar. E o que é pior, quando se olha para os incentivos retirados: é matéria sem importância. Um adendo, como o era a Música, por exemplo, que eu tive em na terceira série, e nunca mais, amém. Óbvio que ninguém diz isso – ninguém ousaria. Mas quando se olha para a forma como a Literatura é tratada, é exatamente isso o que é. Literatura é matéria de escola, e matéria menor. Como se pode esperar que seu desempenho comercial seja, como mínimo, interessante, se o Poder e a Sociedade atuam de comum acordo para que ela seja vista como artigo semi-obrigatório? Mais uma vez, ninguém se atreve a dizer isso, mas os atos falam por si mesmos. E, o que de certa forma, é pior: é a Literatura brasileira para crianças que sofre esse recalque. Veja lá se tal destino é imposto à Literatura Infantil e Juvenil estrangeiras que tomam de assalto as livrarias. Literatura Infantil e Juvenil estrangeiras são, essas sim, apresentadas como sinônimos de prazer, aventura, entretenimento, não-compromisso compromissado – porque não há texto que não tenha algo a dizer. A Literatura vinda de fora é tratada como artigo de interesse, colecionável em suas inúmeras séries. Já a Literatura Infantil e Juvenil brasileiras publicadas pelas editoras de médio a grande porte tem como destino certo – cada vez mais incerto, – as salas de aulas, a formação de leitores, os programas governamentais de fomento à Literatura – termos tão insalubres, em si mesmos, que afastariam o mais otimista dos interessados. A Literatura brasileira Infantil e Juvenil, atualmente, precisa atender anseios que tem a ver com o didático e não com o artístico e o lúdico: precisa ter tamanho exíguo, oferecer histórias sem continuações, direcionado para o trabalho do professor e o tema “transversal” da moda. Ninguém pede ao texto brasileiro que seja interessante, emocionante, vibrante, e que, inclusive, dite as modas literárias, em vez de segui-las como um cãozinho adestrado, ou que tenha a ambição de fazer parte da vida do leitor para além do momento de leitura em sala de aula. Pede-se, oficialmente, que livro brasileiro sirva ao projeto escolar, com um mínimo de correção. E só.

A Literatura brasileira escrita para crianças brasileiras deveria ter como única exigência o prazer. Fazer da Literatura matéria de escola é condená-la a trilhar o mesmo caminho que outras extintas matérias de formação humana, garantindo-lhe uma morte lenta e silenciosa, o triste ocaso de uma arte que deveria oferecer prazer, emoção e entretenimento antes de qualquer outra coisa, aliás, como as outras artes que desapareceram do currículo escolar.

Estamos ao borde de um momento obscuro e terrível. Eu me pergunto que livro Tzevetan Todorov escreveria sobre o atual estado da Literatura Brasileira voltada para crianças. Provavelmente não seria “A Literatura em Perigo”. Seria, talvez, “O Leitor em Perigo”. E, por incrível de pareça, quanto mais se fala na importância da Literatura, mais em perigo o Leitor que gostaríamos de ter, se encontra.

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3 comentários sobre “O Leitor em Perigo

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