Eu, tu, você…

letras

Pronto, lá vem. Volta e meia alguém lembra da velha polêmica do “tu” e do “você”.

Lembro que meu primeiro livro sofreu com isso. No original de “A Noite da Grande Magia Branca”, todos os diálogos eram escritos na segunda pessoa do singular. Sim, eu disse todos. Mas não vá pensar que a razão disso era o bairrismo, não. O “ bairrismo”, se é que dá para falar nisso, ficava por conta do cenário espetacular do interior do Itaimbézinho, onde se passa a história. Introduzido neste texto, a ideia de que a Fantasia escrita no Brasil, a partir de cenários e personagens locais, poderia ser tão boa quanto aquela que vinha de fora. Isso sim é que era diferente, e levanta discussões até hoje, num “nacionalismo” versos “universalismo” que só faz manter viva e saudável a discussão sem fim que se pergunta, quem, afinal de contas, somos nós?

Para mim, a questão não era o bairrismo, era bem diferente. Estava ligada à natureza do texto: uma narrativa de Fantasia. E isso significava, para mim, diálogos diferenciados, com um ritmo e uma melodia mais marcial. Algo próximo à marcha, mesmo. A segunda pessoa do singular parecia indispensável.

Mas a editora não pensava assim. Para tornar o texto mais “universal” e garantir sua venda no centro do país, pediram que eu trocasse todos os “tu” por “você”, com o acompanhamento subsequente da concordância. Deu uma trabalheira doida, mas tudo bem. Eu pensei que tudo ia ficar em apenas um livro, mesmo.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Apareceram palavras – “deletar”, por exemplo. O “curtir” ganhou mais destaque, e eu, que não tinha sequer um aparelho de música que lesse CDs, hoje tenho um celular que só falta sair andando. A Fantasia brasileira, do quase zero absoluto, aqueceu-se num mercado muito próprio, que gera milhares de reais, talvez, quem sabe, milhões, mas que é ostensivamente ignorado pela indústria editorial convencional. E felizmente há espaço para tudo: “tu”, “você”, “vos”, “eles” e até “nós”. Coisa que me alegra porque enriquece o idioma. E não, não é redundante. Ou será que por já existir um Dó, os compositores deixam de usar a mesma nota em outras alturas e dissonâncias?

Não se iluda. Não há polêmica. O que há é um remelexo já costumeiro ao idioma. Espero que dentro de vinte anos alguém lembre de discutir isso de novo. Leremos os mesmos prós e os mesmos contras. Vai ser legal. Teremos novos verbos e outros tantos teremos deixado para trás. A língua, afinal de contas, é o que se fala.

O que se vive são outros quinhentos. Que, aliás, eram quinhentos réis, na expressão original, se não me engano, e que hoje já não valem coisa alguma, a não ser a ênfase que os manteve vivos na memória expressiva do brasileiro. Bem parecido com o “quinhentos reais” que, frente a crise brasileira que voltou à baila, vale menos hoje do que no ano passado. São quinhentos outros, espremidos, encolhidos e mais alados dos que nunca. Feito passarinho.

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