Barroco prosaico

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Finalmente, depois de algum tempo, consigo ir a um concerto na Galeria Scheffel. O que é um alívio: a Galeria oferece um espaço nobre, tranquilo, recebe a gente com um cumprimento pessoal – e isso acontece com todo mundo que lá chega – e um belíssimo arranjo de flores. A música, nessa noite, é antiga. Barroca. À nossa espera já está um cravo – esse instrumento que sempre me faz graça, um som de piano desafinado e sem muita reverberação, seco e oco e, por isso mesmo, inconfundível. Junto, haverá um violino, também de feitura antiga, que é diferente dos modernos: caixa menor, alma diferenciada, braço e arcos em curvaturas inusuais. O tempo a que pertencem ambos é inusual. A música que fazem, permanece viva, sempre surpreendente. Não há nada mais surpreendente do que a Música, salvo, talvez, as auroras boreais e as ondas de surf.

Em meio à segunda composição executada pela excelente dupla de músicos, entra um ouvinte atrasado. Atrasados sempre se fazem presentes e, assim como os celulares – tocou um atrás de mim, à minha direita, na parte final do concerto –, já fazem parte da nossa maneira de assistir música ao vivo. Espero que um dia, assim como os chapéus nas plateias dos teatros, atrasados e celulares caiam de moda, mas por enquanto precisamos conviver com eles.

Pois o homem atrasado chegou, até, discretamente. O que já não era tão discreto, era o que ele tinha nas mãos: uma embalagem de… pipoca. Foi tão inesperado, que não pude deixar de sorrir para a caixa alta, vermelha e branca, de onde sobressaiam umas poucas pipocas superiores. Ele entrou, procurou sua companhia, sentou-se ao lado de uma senhora e, prosaicamente, gentilmente, inclinou-se e ofereceu a popular iguaria. Um gesto encantador e totalmente fora de contexto. Como uma das notas vibrantes e inesperadas do cravo. Depois, ele se dedicou a observar os quadros como quem assiste a um surpreendente filme de ação – o que não deixa de ser, porque ao lado dele estava “Rixa Gaúcha”.

Fiquei olhando, ouvindo a música e pensando na enorme sorte que temos quando podemos reunir música clássica e o cotidiano mais simples no mesmo ambiente. Pipoca e cravo, violino e uma história de amor e morte, cheia de ação. Sempre me perguntei se o gaudério ferido aos pés do velho zangado conseguiu sobreviver e casar-se com a chinoca que se esconde atrás da sombrinha, no quadro. Espero que sim. Detestaria sentir a tentação de jogar pipoca em um quadro tão maravilhoso, só para acertar o vilão da história, enquanto ouço o século XVII sussurrar ao meu ouvido melodias delicadas e acordes saltitantes que me lembram bucólicos carneiros brincando na fímbria dos sonhos.

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