O teatro adormecido

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Na noite de 07 para 08 de novembro de 2015, um grupo de 21 escritores foi convidado a passar a noite no Theatro São Pedro para escrever histórias de suspense, terror e crime. Tive o  privilégio de fazer parte do grupo desta que foi a terceira edição do projeto “Tu, Frankenstein“, dentro da programação da Feira do Livro de Porto Alegre. Para mim, um dos melhores momentos da Feira, como sempre. E aqui, algumas impressões…

12182984_990494837683449_8134622668695543333_oClima é tudo, não é não?

Corredores sombrios, desertos, o carpete e os tapetes abafando os passos da gente. Degraus de madeira que estalam, delatores, as escadas estreitas, os lustres de cristal e o tempo passado. Labirinto que nos leva, às vezes, a espaços surrealistas, ilustrações de Escher transladas ao mundo real. Além das portas dos camarotes, os olhos deslizam sobre as poltronas da plateia.

Vazias.

Sob a meia luz do enorme candelabro de 600kg oscila, sépia, deslizando sombras delicadas sobre as paredes do velho teatro. Não há relógio para marcar as horas. E depois que os atores e espectadores se foram, restou o silêncio.

Meus passos me levam ao vagar, sombra vestida de negro. 12186670_990494994350100_2901901912684452740_oNão fosse o movimento das pernas, eu seria mais um vulto deslizando na noite, um vulto portando uma luz branca e anódina, um fantasma de luz, um espectro gelado que revela o cordame dos bastidores, projeta sombras definidas, ilumina as estreitas plataformas de ferro que circundam o espaço cênico. Tudo como se quisesse desvendar segredos. Tudo como se não tivesse medo. Tudo como se fosse a realidade instalada onde há pouco mesmo havia apenas o faz-de-conta do teatro.

Há pouco, mesmo, havia o sonho do mundo.

Não, o Theatro São Pedro não me meteu medo. E isso que vagueei em suas entranhas sozinha, e isso que desvendei quase todos os roteiros.

parte de mim ainda vagueia

parte de mim esqueceu de voltar

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O São Pedro é acolhedor, cor de manteiga, ronroneante como um gato. Se enfeita de veludo vermelho, mas seu coração é de madeira de lei, o corpo de pedras antigas. Seu lustre oscila a luz como se não quisesse iluminar – como se não quisesse apagar. Passei a noite apaixonada, incapaz de pensar em pavores. A ilusão e a magia eram poderosas demais. Passei a noite explorando recantos com carinho, como se fosse um velho novo e surpreendente amante. Passei a noite sonhando acordada. Adormeci para o mundo real ainda antes do amanhecer.

parte de mim ainda vagueia

parte de mim esqueceu de voltar

ainda estou lá, abafando passos nos tapetes

deslizando os dedos sobre os números das poltronas, latão dourado

parte de mim se perdeu por querer

parte de mim esqueceu de voltar

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