Outdoor

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Subo a Serra Gaúcha pela minha estrada predileta: a BR 116. Cheia de curvas, motoqueiros malucos e motoristas realizando ultrapassagens proibidas. É a estrada da minha infância, da época em que vivíamos em uma Gramado que era de verdade e vínhamos visitar meus avós em Campo Bom, uma vez por mês. Normalmente, fazíamos a viagem à noite, em um tempo em que não havia iluminação pública em parte alguma da estrada; “panela” era o nome familiar, afetuosamente odioso, para “buraco no asfalto”, e “trevo” era uma coisa de quatro folhas que só existia nas histórias de leprechaum. Parecido com a sinalização. Lembro que meu pai enfrentava aquela cerração fechada, a cabeça para fora do carro, tentando ver o asfalto negro que podia terminar de uma hora para a outra. Também, de uma hora para a outra poderia vir um motorista em sentido contrário e provocar uma tragédia, mas de uma maneira ou outra, todo mundo respeitava algo, naquelas noites de anos passados – a cerração, a falta de sinalização, a escuridão – e a tragédia nunca aconteceu.

Então, ousou dizer que conheço bem a 116 entre o Vale do Sinos e Gramado. Se bem que, verdade seja dita, nunca se conhece de fato um caminho. Mas isso é tema para outra crônica.

O caso é que esses dias, resolvi ir à Gramado. Parte do caminho foi alternativo, pela Rota Romântica, mas a partir de Nova Petrópolis tomei a BR, por ser um trajeto conhecido e, até certo ponto, seguro. Por conta do trânsito e das ultrapassagens dos demais – sou daquelas motoristas perigosas que teima em seguir ao máximo a sinalização de velocidade limite, então sou quase uma tartaruga, na opinião de muita gente que conheço – fiquei de olho nas escapatórias: aqui um acostamento, acolá uma entrada de carro, uma parada de ônibus, um paredão de pedra… opa, não, aí não há escapatória, mas o olho desviava em busca de alternativas assim mesmo.

Foi por conta dessa busca – também por conta das incontáveis curvas da estrada sexy – que me dei conta: os outdoors.

Um ao lado do outro. Uns sobre os outros, disputando acirradamente o meu olhar. Restaurantes, artesanatos, hotéis, atrações. Veja a casa do papai noel. Não perca as atrações do parque nevado. Não deixe de provar o churrasco, o frango, o café colonial. Compre. Veja. Hospede-se. Delicie-se. Todos coloridos, enormes, esfuziantes, tapumes cobertos de imagens. Uma muralha de armação e papel e plástico, uma coisa quase contínua, quase fechada. Mais um pouco e haverá pontos parecidos com o Muro da Mauá, com a diferença que ninguém se mobiliza para tirá-los de onde estão.

Havia um tempo em que as pessoas subiam a Serra em busca da paisagem. Do horizonte. Do silêncio – engraçado como os outdoors, mesmo sem som ou movimento me remetem a um ambiente barulhento, como eles evocam, dentro de mim, um ruído constante, músicas estridentes e pegajosas, vozes que não se calam jamais, que nunca tomam fôlego, que me oferecem até a insanidade coisas que nunca me fizeram falta.

Então o olho, que é meio que viciado naquelas curvas, naquelas encostas, naquela linha azulada lá longe, vislumbra, entre um anúncio gigantesco e outro, um pedaço de paisagem. Anúncio, uma nesga de mata, outdoor, outdoor, um trecho de subida, compre, um pedaço de casa antiga, conheça, coma, um recorte de jardim, vista, deslize, alugue, uma fresta de caminho que leva a algum lugar quieto e tranquilo que durante alguma viagem serviu de abrigo a uma história inventada pela menina sentada no banco de trás do carro, ocupando o tempo tedioso do deslocamento com alguma história mirabolante. “Já pensou morar naquele quarto?”, “Já pensou, andar naquela rua?”, “Já pensou, subir aquele paredão?”, “Já pensou no que haverá naquele mato? Bichos, regatos, aventura?”, “Já pensou” antes, quando a paisagem era visível, quando o céu era um azul completo, sem esquinas.

Suspiro, entre triste e conformada. Pelo menos, esses outdoors ainda não se movem. Pelo menos ainda não piscam. Pelo menos eles ainda se limitam a tapar a realidade, enciumados e enlouquecidos.

Pelos menos eles ainda não substituem o além. Porque chegará um dia, eu temo, em que os outdoors reproduzirão o que está atrás deles uma cópia descarada da beleza que brota por si, sem preço, sem dono, sem ostentação. E alguns de nós acharão isso o máximo da tecnologia. Irão parar o carro. Irão fotografar o anúncio. E tudo o que houver de verdadeiro do outro lado da estrada, continuará invisível. O tangível e o real invisíveis aos olhos que teimam em ver somente o que está embalado pela moldura do cotidiano.

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