Majestade

 

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Pinheiro multisecular em Linha Imperial, Nova Petrópolis, RS. Entre 500 e 1.000 anos de idade

Busco tema para uma crônica, lembro da visita do final de semana: a contemplação de uma árvore de mais de 500 anos.

Boa ideia!

Procuro a foto no arquivo, encontro a árvore monumental. O tronco é um cilindro reto, firme, coberto de casca grossa e fendida. Por cima de tudo, aqui ou ali, véus feitos pelas mais tenebrosas e habilidosas aranhas – vi uma de longe, o suficiente para acelerar o coração aracnofobico e endurecer as articulações. Medo, muito medo. Mas o seu trabalho é inigualável – ;  no tronco, aqui ou ali, beijos de sol.

Encontro no PC um programa que promete imprimir em 3D o conteúdo da foto. Brinco com ele, brinco com a tecnologia que me revela a casca em outra dimensão: cordilheiras. A árvore de multiséculos é uma montanha, é um continente habitado por criaturas inimagináveis. Desligo o programa. A virtualidade é uma mentira: há uma necessidade de reproduzir, recriar, reinventar. Um desespero para refazer a Realidade, na medida vertiginosa em que a destruímos. O observador modifica o resultado do que observa. O humano destrói o que toca. E no instante em que o faz, sente o vazio o inundando, desproporcional. Tudo o que amamos se desfaz.

Por isso, ao chegar ao sopé do gigante – naquela tarde e na minha memória –, imobilizo. A majestade se sobrepõe, a majestade que não é humana, que não é feitura, que não é parede de castelo, nem quadro pintado, nem coisa alguma que as mãos criam. A majestade é viva. É sombra. Silêncio. O brilho do Sol nas altas ramagens. Não tenho ideia de distância, mas sei que o galho mais baixo está tão alto que as copas das árvores ao redor mal chegam a roçar nele. A brisa do verão desperta o ciciado do bosque, mas ela não se move. Não cicia. Quieta, estende seus ramos para o céu. Não sei se ainda tenho medo. Toco o tronco com a ponta do dedo. Só isso, só a ponta do dedo. Não me atrevo a mais, ela é mais do que uma anciã. Ela é a própria ancestralidade. Me pergunto se ela sentiu. Me pergunto se ela se importou.

Não sei responder. Ao redor dela, o silêncio impera. O silêncio da reverência e do respeito. Nas ramas onde o sol doura e a braba-de-pau balança ao vento, nem os pássaros fazem algazarra. Eu, quieta, tiro a minha foto.

E bem à frente, uma outra árvore, muito menor, muito mais jovem, mas ainda assim mais velha do que eu, derrama à contraluz minúsculas gotas de suor vegetal. Continuamente, delicadamente. Em silêncio.

Será que as máquinas terão inveja ao não conseguirem imprimir o silêncio?

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