Bandeirolas

bandeiras-sinalização-praia

Quando eu era pequena, havia quatro cores de bandeiras sinalizadoras nas praias gaúchas: a branca era quando mar estava calmo, quase parado, sem uma onda de respeito – eu achava muito chato, porque não havia ondas para furar, mas a família ficava feliz. Depois vinha a amarela, que significava “atenção” – e era um tanto mais divertida: o mar apresentava algumas ondas, mas era todas fraquinhas, brincalhonas, sem nenhuma adrenalina. A minha predileta era a vermelha, que significava “cuidado”: era quando o mar realmente estava para Simone, com muitas ondas, algumas altas, outras emboladas, buracos e repuxos. A gente tinha de ficar de olho no que vinha, e o banho era movimentado pra caramba e muito divertido para mim. A mãe, a avó, o avô e o pai, logicamente, não achavam tão engraçado assim.

Agora, emoção, emoção mesmo, era se tinha bandeira preta. Todos os dias, quando íamos até a beira mar – e ponha aí uma caminhada pelas dunas, que sou do tempo em que para chegar até o mar você tinha que querer mesmo molhar os pés na espuma – eu perguntava: “se tiver bandeira preta não dá pra entrar, né?” E a resposta era, claro, “não, daí a gente vai ficar só olhando”. E eu imaginava umas ondas enormes, com beirada de espuma suja, furiosas, rugindo rebentações, um repuxo de agarrar a areia e puxar tudo para dentro, furioso, revolto e magnífico.

Nunca cheguei a ver uma bandeira preta oficial, mas lembro com carinho de uma praia na Galícia que me meteu tal medo, que não ousei entrar na água fria. Talvez, se fosse aqui, a bandeira fosse preta, naquele dia.

Enfim…

Depois passamos por uma novidade: as quatro cores foram reduzidas à três. Como uma sinaleira: verde – tudo bem, divirta-se -, amarela – atenção – e vermelha – pare e não entre. Eu não cheguei a formar opinião, porque este ano já mudou tudo de novo. Agora não são apenas três, mas sete! Além das três novidadeiras, chamaram de volta a boa e velha bandeira preta, que sempre foi muito mais efetiva do que a vermelha, e avisa quando não há salva-vidas na guarita. Acrescentaram as azuis que são postas a tremular quando há alguma pessoa perdida, e as lilases – santo Deus! – que avisam sobre a presença de mães-d’água. E, estes dias, ouvi que inventaram mais uma, cor-de-rosa. Adivinhe pra quê? Não, não tem nada a ver com o sexo dos banhistas mas não faço a menor ideia do seu significado.

O que deveríamos de inventar é um pouco de bom senso ao ir para a praia. Como geralmente acontece com a maior parte das coisas que se faz na vida, um pouco de bom senso ajuda a manter os problemas longe. Bom senso e respeito pelo berço da vida neste planeta. Aliás, que coisa, se gente tivesse um pouco de bom senso e algum respeito, não estaríamos na arapuca ecológica em que nos metemos. Como não dá para enfiar juízo retroativo na cabeça de ninguém, lá seguimos com bandeirolas para lá e para cá, tentando descobrir que cor é que a da felicidade irresponsável dos verões.

Talvez seja o dourado do entardecer. Mas ninguém vai colocar uma bandeira na praia para indicar que “aqui se é feliz, obrigatoriamente”. Para isso, basta olhar o sol, o céu e o mar, suspirar e sentir o mundo flutuar no vácuo do espaço. Só isso, deveria bastar.

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