No trem

musico

‘Dias desses, vou à Porto Alegre. Era pela tarde e fazia aquele calor opressivo do verão gaúcho. Peguei um trem dos velhos (eles ainda não são tão velhos que se possa chamar de “antigos”), barulhento e sem ar condicionado. As pessoas se acomodavam letárgicas no seus bancos, até um trio de adolescentes que no início da viagem estava bem animado. Os fios do cabelo longo de uma das meninas, ao meu lado, esvoaçavam e se prendiam à pele suada do meu braço. A luz do sol era uma explosão continuada do lado de fora, fornalha da vida.

Era uma viagem eterna de uma hora, contada no relógio. Trens têm mania por pontualidade, e o Tempo não é relativo, é elástico.

Então, em certa parada, já na capital, entram no vagão dois sujeitos de camisão colorido. Um deles usava uma cartola clássica e de bom ver, lilás. Ambos tinha nas mãos, oh, horror, oh, tédio, violões.

Todo mundo sabe no que vai dar isso, eu pensei, aborrecida. Músico de metrô, por aqui, é costumeiramente ruim. Desafinam, quando cantam algo conhecido; engrolam a língua quando a canção é própria. Fiquei tentada a trocar de vagão na parada seguinte, mas estava tão quente… eu, ali, tinha conseguido lugar para sentar e nada me garantia que no outro vagão teria semelhante sorte grande. Por outro lado, a viagem estava no fim, só mais três estações, então… Mais gente deve ter pensado assim, porque quase ninguém levantou os olhos do celular, ou desviou a mirada protegida por óculos de sol da parede em frente.

Então o sujeito da cartola a colocou no chão, ao melhor estilo de músico de rua, afinou a guitarra e, num desafio à Física cartesiana, pôs se a tocar o instrumento e cantar. E de saída, atacou de… Raul Seixas. Mas não uma música qualquer: era “Cowboy Fora da Lei”, transformado. Com arte e graça, ele colocou no velho rock o trem, os passageiros, o calor, a falta de ar condicionado, de conforto, o preço da passagem, o transporte público, os políticos corruptos e todos nós rimos, balançamos a cabeça, cantamos junto e despertamos. Foi uma lufada de refresco, respiro e depois disso, veio outra e outra mais, e ainda bem que o Tempo também sabe ser elástico por coisas boas, então a viagem durou um pouco a mais, e a gente pode ouvir, cantar e se divertir com três, nada menos do que três canções bem humoradas. Eles desceram na Rodoviária. Eu segui até o Mercado. E todo mundo se olhava como se fôssemos amigos, e a gente sorriu ao sair do vagão, porque a música tem dessas coisas, quando é compartilhada.

Já estava saindo quando vi um sujeito sentado, a cabeça baixa, as mãos cruzadas e a respiração profunda. Dormia. Bati no ombro dele e quando ele me olhou, meio assustado, avisei: “chegamos”. Ele agradeceu, piscando, mais ou menos desperto, mais ou menos perdido e saiu. Não ouviu o guitarrista, não cantou o cowboy, não disse “toca Raul”, nem viu a cartola lilás onde o músico recolhia as moedas em troca de animação.

Tem horas em que estar desperto é melhor do que sonhar. O que, aliás, me lembra uma canção velha, que o música não lembrou de cantar.

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