GPS

gpsEntão você compra o GPS. Liga o GPS. Carrega. Passa meia hora procurando o lugar ideal para colocar o GPS no para-brisa. Descobre que precisa um outro aparelhinho, vendido separadamente, que servirá de tomada entre o cabo do GPS e o carro – e o seu cunhado lhe disse que é melhor ter a tal da ligação, porque a bateria do treco sempre termina quando você mais precisa. Você compra o adaptador (esse é o nome do aparelhinho). Volta a procurar um lugar para o GPS. Quando acha o ângulo perfeito para ele, aquele ponto em que você consegue olhar para frente e dar uma espiadinha rápida na telinha iluminada e colorida, descobre que o cabo que conecta o aparelho ao adaptador, é curto demais. Você vai e compra um cabo maior – que é vendido separadamente. Liga tudo. Percebe que deveria ter ligado o carro antes, senão não há corrente.  Dá a partida e no mesmo instante lembra do seu mecânico dizendo que o melhor é ligar o carro sem nenhum extra elétrico ligado, nem ar-condicionado, nem ventilador, e nem – é claro – celular para carregar ou GPS. Agora é tarde, você já ligou e já deu um susto na bateria, mas tudo bem, porque o carro segue funcionando. Grande coisa é um bom carro.

Aí você descobre que em área coberta o GPS não funciona – ele nunca encontra os satélites debaixo de um telhado. É preciso ir para a rua. Que, felizmente, neste momento está deserta e não há nenhum bandido à postos para assaltar você enquanto você tenta fazer a coisa funcionar. Enfim, o GPS finalmente encontra o satélite e é um momento de euforia.  Você se sente em um filme de Ficção Científica, pilotando a Enterprise. Só que daí você descobre que colocar o endereço para que o GPS trace o itinerário também é um rolo, porque ai de você trocar rua por avenida, praça por bairro. Já teve gente que morreu por causa disso. Em todo o caso, o mais provável é que ele não encontre o endereço. Se errar uma letra, número, o que for, no tal do endereço, ele também não sabe onde fica. Acerte o número da casa, por favor. E não esqueça de rezar um terço para tudo dar certo.

Enfim, a coisa funciona. O GPS começa de imediato a dar ordens num tom frio e cortante: siga em frente, vire à direita, à esquerda, contorne a rótula, pegue a segunda saída, mantenha-se à direita, tire o pé do acelerador que o limite de velocidade é 60 e você vai à 61, cuidado com o radar, o cachorro que vai atravessar e a velhinha regando as flores. Siga no rumo.

E aí você descobre que “rumo”, para o diacho do treco, é sempre aquele itinerário com mais buracos, com mais quebra-molas e sinaleiras, o que segue por ruas suspeitas, becos escuros e bairros estranhos. O GPS, por alguma razão que a Razão desconhece, sempre nos leva por caminhos ermos, onde todo mundo fica olhando o seu carro e você não sabe se é porque ninguém ali usa aquela coisa, ou se é porque você está arriscando a pele, mesmo. De maneira geral, o GPS sempre escolhe o caminho mais feio que houver. O mais retorcido. Você conhecerá uma parte da sua cidade que você nunca viu e sequer imaginou que existia, há duas quadras, apenas, da sua casa. O que esperava? O GPS está lhe dando uma oportunidade de abrir horizontes, descobrir novos rumos – sobretudo aqueles que você poderia passar muito bem sem descobrir. Ruas esburacadas, estreitas e mal iluminadas são parte inerentes aos caminhos da modernidade.

Então, quando você já está meio desesperado, para a sua sorte – acredite! – o adaptador dá mau contato por causa da trepidação da ruela em que você se meteu. Você não sabe disso, porém em seguida o GPS avisa que está com pouca bateria e vai desligar – e sem a menor contemplação, apaga, deixando você no meio daquele bairro estranho, completamente sozinho, para que você compreenda bem o que significa a expressão “no mato sem cachorro”. Meio em pânico, você dá a sorte de ver ali adiante a placa de um posto de gasolina, onde para meio trêmulo, e faz o que deveria ter feito antes de ligar o treco eletrônico: perguntar a um ser humano. O frentista, entre bem-humorado e de nariz torcido porque você não vai comprar nada, indica que era só virar na próxima esquina para estar em uma avenida conhecida. Derrotado mas vivo, você obedece a indicação e… descobre que sabe bem onde está, que se tivesse seguido o instinto ou o fluxo de trânsito, simplesmente, teria chegado bem antes.

Vê lá se na volta você banca o esperto, fala com alguém para lhe indicar a saída e na próxima vez deixa o mapinha colorido, iluminado e burro no porta-luvas.

Coisas eletrônicas: a vida é bem mais simples sem elas.

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