Idos de março de 2016

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Ontem à noite, foi assim:

                O ruído das panelas começou antes mesmo do Jornal Nacional terminar. Ficou mais forte depois que o noticiário mais popular do país encerrou. Algumas pessoas piscaram a luz de seus apartamentos.

                Na esquina, sob a marquise da loja que está para alugar, um sujeito se abancou com suas tralhas: sacos de plástico cheios de papel, papelão, embalagens e garrafas de plástico. Cada coisa no seu lugar. Ele estacionou a sua bicicleta amarela contra as portas de ferro fechadas e ajeitou seus pertences.

                O ruído do panelaço me levou à sacada. Havia gente parada na esquina, junto com o recoletor de lixo. Acho que ao todo eram três homens e uma mulher. Ela batia uma colher em uma panela, com a força de um despertador. Um sujeito tocava uma vuvuzela. O bramido frouxo e grave se espalhou pela rua. O outro sujeito tirou um celular e gravou tudo. Ao fundo, os sacos plásticos. A mulher descansou o braço e os meus ouvidos do timbre agudo. O da vuvuzela parou de tocar. Os quatro falaram, o terceiro gravou. A mulher gritou “Fora, Dilma!” Depois, o da vuvuzela e a da panela foram embora, fazendo barulho pela rua, sem muito entusiasmo. Em todo o caso, qualquer comentário sexista ficou no rastro deles. Por que ela tocava a panela e ele soprava a vuvuzela? Por que não ao contrário? O homem do celular olhou para o meu lado, como se me visse. Atravessou a rua. O panelaço generalizado começou a se apagar, mas na distância ainda dava para ouvir a panela da mulher.

                O homem dos sacos plásticos ficou sozinho. Como todas as noites anteriores, aliás.

                Ao longe, o traçado das ruas trouxe o rugido do trem e as buzinas. Buzinas. O povo se reunindo era um rumor, um zumbido baixo, abaixo do audível. Mas real. Depois, primeiro fraco e logo mais encorpado, o Hino Nacional, incrivelmente, afinado. Todo mundo sabe que o Hino Nacional Brasileiro é difícil, qualquer músico diz isso. Mas dessa vez não. Dessa vez foi afinado. Vinha com a brisa noturna, um canto veludoso e cheio – cheio de vozes, cheio de indignação, cheio de indagações.

                O homem dos sacos plásticos acomodou-se junto às tralhas que recolheu durante o dia, deitou-se e dormiu. Dormiu o sono dos justos, dos que não temem e não devem.

                Como todas as noites, aliás.

                A manifestação na praça sob o trem, diante do shopping, prosseguiu. O rugido da máquina sobrepondo-se, vez por outra, ao rumor da multidão. A distância faz dessas coisas interessantes, sobrepõe sons, pressupõe vidas.

                No celular, o site do jornal local informou que ladrões de carro acabaram de realizar um arrastão no bairro onde eu moro, há pouco mais de quatro quadras de onde a multidão se indignava contra os desmandos do Poder e em nome de um país melhor para todos. Irônico, isso.

                As palavras de ordem seguiram ecoando na brisa suave e quase quente. O verão teima em não partir, o que é bom para quem dorme embaixo de marquises, penso eu.

                Na esquina, o rugido da multidão foi substituído pelo rugido do trem e logo pelo do caminhão do lixo. Os lixeiros, na dura faina noturna, corriam atrás da máquina, à frente dela, recolhendo o lixo que o papeleiro não recolheu, juntando os restos do cotidiano e os últimos cacos das palavras de ordem que ainda escorriam pelas frestas de sombra e luz alógena. “… ment”, “for…”, “…filho teu não…

                Aos poucos, ao longe, o silêncio da manifestação. A noite ganhou espaço.

                Debaixo da marquise, ao lado do que irá vender amanhã, quando o dia clarear, o homem dormiu sozinho.  Um filho teu, pátria minha. Que não foge à luta, mas às vezes é nocauteado por ela. Deitado, no berço duro e frio da calçada, ao som da cidade que se apagou aos poucos, e ainda à luz do céu profundo.

                Amanhã, a manhã será iluminada, como sempre, pelo velho Sol do Novo Mundo: na indignada Terra Brasilis, só São Paulo pagará para ver o dia nascer.

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