Porto Alegre

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Cúpula da catedral porto-alegrense emergindo dentre os edifícios do bairro.

(velha crônica de gosto muito, repeteco para quem conhecia o velho blogue, novidade para os que chegam agora. Mais ou menos como a capital dos gaúchos)

 Debruçada na amurada do “Cisne Branco”, pensava eu que deveria haver alguma lei que decretasse: a Porto Alegre, só se pode chegar e partir de barco.

Era domingo, era a Feira do Livro. No Cais do Porto repleto, sob os toldos brancos que acolhiam as tendas da feira infantil, passavam vendedores de balões, algodão doce, pipoca. Gente, muita, tanta, tanta gente. Atrás dos toldos, a moldura zigue-zague dos armazéns e atrás deles, ainda, as ameias irregulares da muralha de edifícios.

A distância modifica o quadro. À medida que o barco se distanciava do porto de granito rosa – tão pouca gente sabe que o Cais do Porto é de granito rosa, tão pouca gente sabe que o Cais tomou-lhe ao rio a margem! – os edifícios sisudos vão perdendo a nitidez e por trás deles acena o centro e a história: ali, gêmeas brancas, as duas torres da Igreja das Dores despontam pouco nítidas entre o recorte moderno. Veem-se árvores – que praça será?, pergunto eu, que não moro aqui. A chaminé do Gasômetro reta e solitária, muito mais alta do que os finos guindastes que içam a mercadoria para cá e para lá. De Porto Alegre só se deveria poder partir de barco.

Do outro lado, os canais, a mataria das Ilhas Fronteiras. Que belo nome deram a essas ilhas! Claro que têm, originalmente, outra conotação: são “fronteiras” as ilhas que desenham o horizonte que fica “defronte” ao Mercado, à Praça da Alfândega, ao próprio Cais. Mas são “fronteiras” porque acercam uma margem falsa que se multiplica em tantas outras. As Ilhas Fronteiras recebiam os negros escravos, quando estes fugiam do jugo do branco senhor. As Ilhas Fronteiras guardam histórias e nomes misteriosos: Ilha da Casa da Pólvora, Ilha das Flores, dos Marinheiros, da Laje, Ilha da Pintada. Ilhas, fronteiras irônicas entre a miséria e a opulência, o barraco equilibrado em quatro estacas de um lado, a mansão que se esconde dela atrás de um muro alto, do outro, mas todos voltados para o rio que é um lago, que um estuário, que é um espelho para a cidade que se debruça feito uma colagem de cacos cinzentos de dia, feito um tecido de luzes à noite.

A Porto Alegre só se deveria poder chegar por água. Porque é pelo Guaíba, passadas as ilhas de juncos, maricás e figueiras, de jararacas, pica-paus e garças, que se vê a cidade de braços abertos, estendida na direção do viajante que se aproxima, cidade de viadutos e praças, de prédios feios e retos e casarões dos velhos tempos. E também porque é só do Guaíba, por volta das cinco da tarde, quando o sol já vai à roda, buscando o crepúsculo que, dizem, é o mais bonito que há, é só então que se vê aquele destelho acobreado lá do meio dos prédios. A centelha vara o concreto, acena com beleza inesperada e se descortina como que o brilho de um olho, como que um sorriso sedutor, como que um sopro. E como vem, vai no subir e descer das ondas. E como vai, fica a cisma: que vidraça espelhada, que prédio modernoso seria aquele? Lá no meio? Lá no alto?

A sereia toca, os marinheiros arrebanham o grupo de turistas de um lado do barco. Do outro, o casco vai se aprochegando das beiradas ásperas, buscando o granito que já ninguém lembra que é rosa. E a cisma continua na azáfama de descer, que vidraça? Que prédio? Que cobre…?

Se for às ave-marias, de longe se pressagia o bronze dos sinos da catedral. E como um eco a memória vislumbra de novo aquele brilho que só se vê de fato do Guaíba: é a cúpula de cobre da Matriz.

Deveria haver alguma lei que decretasse: a Porto Alegre, só se pode chegar e partir pelo o rio, que é lagoa, que é delta de sonhos dos que chegam, que é delta de saudades dos que se vão.

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