Malabares

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Sob a sinaleira, a tarde e a noite se cruzam. Carros rugem, impacientes, mas só os mais afoitos se utilizam da estridência da buzina.

O cruzamento está na esquina de um hospital.

A rua movimenta, se estende sobre a crista do monte feito um friso na cabeleira de árvores, e edifícios, e casas. A outra, emerge e submerge na ladeira. Não há como ver quem vem, a subida é íngreme demais – daí a necessidade do sinal. E na hora do pique, ainda mais, porque ali adiante há uma universidade e a vida passa vibrante onde deveria haver paz e sossego.

Aliás, há isso, de fato?

Em um dos espaços, agora vazio de carros dado o poder de um farolete vermelho no alto, dado o poder do acordo selado – e muitas vezes não cumprido – em uma carteira de papel timbrado, um malabarista. Fosse outra hora, mais clara, mal se veria o que ele faz. Talvez por causa da fumaça preta que uma das pontas dos bastões emana.

De fato, o malabarista urbano brinca com fogo. Três tochas rodopiam em suas mãos jovens e claras, e o malabarista se faz de mais velho debaixo de um chapéu preto e verde, um colete de couro velho e sujo, umas calças sem grife e sem moda.

Os discos de fogo se sucedem acima e abaixo, como aves ígneas. O timing dele é perfeito: para pegar a tocha na ponta certa, para jogá-la na altura exata, para segurá-las todas no momento pontual, e passar o chapéu antes do sinal abrir e a enxurrada de metal, vidro e plástico fluir inexoravelmente para o adeus, ameaçando levar consigo a sua existência.

Será que ele ganha o suficiente para o pão seu de todos os dias? Será que ele ganha o bastante para garantir o combustível das tochas de amanhã? Será que os sorrisos bastam? Eu o olho com o passo apressado de quem está só caminhando, eu sou apenas um caminhante a mais na pequena cidade grande. Lembro de um livro que li, de um personagem com quem não terminei de simpatizar mas que, por isso mesmo, sempre me pareceu um grande personagem: Dedo Queimado. Os personagens que transcendem as páginas onde estão escritos são aqueles que tem vida própria e não aqueles que a gente ama. E penso, pé ante pé, num traçado apressado sobre a calçada, que o irônico é que Dedo Queimado é um personagem arrancado das páginas de sua história e atirado no mundo real. Talvez seja aquele rapaz ali, fugido da narrativa dentro da narrativa e incapaz de voltar ao seu lugar, ao seu mundo, como quase todos naquela esquina. Buscando, buscando sempre, sem conseguir encontrar o conto onde se encaixam – e daí que escrevemos e fazemos nós a nossa própria história, na falta de alternativa melhor.

Por trás do jovem que talvez tenha saído de um livro de papel, o sol se despede de mais um dia, uma brasa imensa e bela que poderia bem ser apenas mais um dos malabares do artista.

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