O estarrecimento

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Sou do grupo das estarrecidas.

Assisto, diariamente, estarrecida, a implosão do meu país. A volta atrás. Os velhos argumentos sendo esgrimidos como se fossem pensamentos novos e flamantes.

Vocês lembram como começou o impeachment, não é? Dividindo a opinião pública. Lição velha, de Machiavel, eu acho: dividir para governar. Não sei se foi ele, na real, faz tempo que li “O Príncipe”. Em todo o caso, o séculos passam, mas o homem é basicamente igual. E para reinar sobre um grupo, a primeira necessidade é a da divisão. Depois, tudo é possível.

Bom, espero que você lembre da discussão na rede, quando tudo isso começou: petistas contra coxinhas; coxinhas contra petistas. Não tinha nada no meio. Os demais partidos precisaram se acomodar de um lado e outro do ringue.

Agora está começando uma nova batalha, muito mais clara, e muito mais suja, que vai causar muito mais estrago do que estamos pensando: abriu-se, finalmente, o ringue para a Direita contra a Esquerda, ou a Esquerda contra a Direita. Como quiserem, a ordem dos fatores dificilmente alterará o resultado final: um país dividido, entregue ao poder da força bruta.

A batalha está começando na dicotomia Cultura versus as Necessidades do País. Você já deve ter visto: desde que o governo Temer extinguiu o Ministério da Cultura, entregando suas atribuições a uma Secretaria de Estado vinculada ao Ministério da Educação, os artistas e intelectuais em peso se rebelaram. Reclamaram. Estão fazendo atos de resistência. Denunciando. Gritando, ridicularizando, e lutando por continuar a existir como produtores de bens que interessam e enriquecem a Sociedade – coisas que, afinal de contas, os bobos da corte fazem desde priscas eras. Porque nós somos os bobos da corte. É nossa função gritar, ridicularizar e criticar. Se não fizermos isso – e a verdade é que bem pouco foi feito neste sentido nos últimos vinte anos, bem feito para nós, a situação de agora – perderemos a nossa real função de divertir a corte. E, perdendo nossa função, possivelmente perderemos a cabeça junto.

Do outro lado da discussão estão as pessoas que acham que o artista não faz nada. Que cantar, se aprende no chuveiro, que para preparar show ou gravar é só reunir uns amigos ali na sala e pôr o gravador do celular para funcionar. Que para montar uma peça de teatro que fale de ser Ser Humano é algo menor. Que organizar e manter museus e bibliotecas é uma bobagem que só é válida na Europa, onde o dinheiro rola em rios largos e profundos como o Reno (por falar nisso, nessas horas lembro daquela história sobre a casa de Goethe. Me contaram que durante a Segunda Guerra, os habitantes de Frankfurt perceberam que os bombardeios aliados estavam comprometendo a casa do célebre escritor. Que tudo o que restava de memória de Goethe – que não fossem suas obras literárias – estava em vias de perder-se. O que fizeram eles então? Deixaram ao Deus dará? Não. Os alemães desmontaram o que ainda havia da casa. Resgataram móveis e objetos. Guardaram tudo. Como vocês sabem – espero que saibam – após o término da Guerra, a Alemanha teve sérios problemas financeiros. O que restava da casa de Goethe poderia ter sido leiloado para arrecadar dinheiro para construir creches para as crianças órfãs, por exemplo, ou ajudar na reconstrução de hospitais e escolas. Suponho que na visão dos brasileiros que acham que Cultura é uma coisa menor, esta teria sido uma nobre função para os objetos da casa de Goethe (já pensou, poder ter um abajur que tivesse iluminado as últimas horas dele, e que aparece no poema “O Livro e a América” de Castro Alves – “Como Goethe moribundo/ Brada “Luz!“, etc. – luzindo na sua sala, ao lado da TV de plasma?) Bom, a comunidade de Frankfurt não fez nada disso. Ao contrário: reconstruiu a casa do poeta e recolocou de tudo volta. Tudo. E é por coisas como esta que nós brasileiros, gastamos o dinheiro que nem sempre temos em viagens à Europa para ver este e outros museus espalhados pelo continente). Bom, por que deveríamos achar que as coisas são diferentes? Fazemos isso e isso é o que aparece: a Cultura nas coxas, no sofá da sala, na sacada do apartamento, quando o apartamento tem sacada. E isso é o que se valoriza de fato, não o profissional. O que é valorizado é o “faça em casa, faça você mesmo”. E quando vemos que nossos fazeres não tem a mesma qualidade, a mesma profundidade do que é produzido em países que levam a Cultura à sério, salta à cena o famoso Complexo de Vira-Lata, que nada mais é do que um chororó sem cabimento, pé ou cabeça, destinado, apenas a nos explicar perante o Mundo e tentar convencer o planeta inteiro de que, sim, somos legais, somos inteligentes, somos bonitos, somos bacanas e somos bonzinhos. Aliás, os mais que todo mundo. E acabo de lembrar, não sei porque, de uns coleguinhas que tinha no primário.

Acredita uma grande parte dos brasileiros, que o MinC já vai tarde. O dinheiro que era usado para manter galerias de arte públicas, como o MARGS, em Porto Alegre, ou espaços de uso público, como o Memorial do Rio Grande, são supérfluos. Não é preciso ter memória, quando tem gente morrendo nas emergências.  O dinheiro que serve para manter as mansões de artistas (como foi citado em um post que li, onde se dizia que o dinheiro da Cultura serve, entre outras coisas para manter a mansão de artistas de Luan Santana, como se Luan Santana não fosse sustentado pela compra de seus discos e a venda de direitos de suas músicas para os mais variados usos), seria melhor empregado em escolas e na saúde pública. E essa grande parte dos brasileiros que acredita que os artistas gritam e se sacodem pelo fim do MinC porque são de Esquerda, querem viver do dinheiro do país, sem fazer esforço algum, são apenas a vitrine de toda uma Esquerda que quer igualmente viver do dinheiro do país sem esforço algum. No final do raciocínio está a certeza de que a Direita vai endireitar tudo.

(suspiro)

Trabalho com Cultura há 30 anos. Não moro em uma mansão, moro no apartamento da minha mãe, porque o meu trabalho não me dá renda suficiente para ter uma vida autônoma. E meu trabalho não me dá renda suficiente, porque a população brasileira sempre achou que Cultura é algo menor, que qualquer um faz. Qualquer um faz uma música. Qualquer um pinta um quadro. Qualquer um faz uma escultura. Qualquer um escreve um livro. E assim sendo, não precisa pagar para ter isso em suas vidas. Aliás, tendo a novela das nove, para que o restante, não é mesmo?

Esse jogo vem sendo jogado há décadas. As discussões em torno da Cultura morreram com o advento da internet. Hoje, todo mundo tem opinião, e todo mundo quer falar ao mundo a sua opinião. O problema, que a gente que trabalha com Cultura aprende desde cedo, não é o falar, é o ser ouvido.

Eu, que sou apenas humana, reconheço minhas limitações: não sou capaz de compor uma música. Não sei pintar um quadro. Não sei fazer esculturas. Não sei representar. Sei escrever. Só isso.

Quanto à ser ouvida/lida, com toda franqueza, quando este blogue tem algum texto com vinte leituras, me sinto vitoriosa. Mas, na real, hoje qualquer um tem um blogue, então do que estou reclamando?

Estou reclamando enquanto ainda posso. Enquanto ainda tenho voz e o direito de falar. Porque esta é a matéria prima da Cultura: a voz da gente. A voz que ali assim, quando tiverem calado os artistas com pilhas de fotografias de emergências públicas lotadas (sim, nós afinal de contas temos consciência e piedade), quando tiverem convencido a nós e ao público de que a culpa da situação do país é do bobo da corte, quando os dois lados do ringue se baterem de frente (porque irão se bater), essa voz vai se calar num cochicho. E vai demorar para voltar a se erguer.

Só não acredito que de fato vá se calar.

 

 

 

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2 comentários sobre “O estarrecimento

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