Geni

NÃO

Tá bom, preciso falar.

“Não”, é não. Negativa. Quem diz “não”, está negando alguma coisa.

“Estupro”, é estupro. Não importa se foi um ou se foram trinta. Não importa se foi ateu ou dos que professam alguma religião. Não importa se foi no Brasil ou na Índia. Forçar uma coisa para dentro do corpo de outra pessoa – que está dizendo “não” –, seja um pênis ou uma escova de dentes, é uma agressão, reconhecida como crime. Tem penalidades previstas em lei.

Se aproveitar de alguém que no momento não pode expressar sua vontade, também é crime. Artigo 215 do Código Penal Brasileiro. Então, se a pessoa está desacordada/drogada/dormindo, e alguém tiver relações sexuais com ela, sem consentimento, é estupro.

Isso dito, vou dizer o que vai acontecer com os caras que estupraram a menina do Rio de Janeiro: nada. Alguns serão chamados para dar depoimento. Alguns serão presos. Haverá um inquérito, talvez haja um julgamento, talvez alguns sejam presos. Poucos, contudo. E depois, quando a gente menos esperar, muito antes do fim de qualquer pena, eles serão soltos. A imprensa noticiará numa nota breve, a gente levará a mão à testa, como quem tem um arrepio ou um pesadelo, e segue o baile, que as ciclovias caem, os governos mudam, e a vida toca a sua valsa sem parar.

Com a vítima do Rio de Janeiro, a gente já sabe o que está acontecendo: já foi identificada como “drogada” – o termo elegante é “usuária de drogas”. Tendo dezesseis anos, já é mãe de uma criança de três, o que faz com que já tenha um rótulo tatuado virtualmente. Ela foi inquirida. Ela foi julgada. Independentemente do que acontecer com seus algozes, ela  está cumprindo a pena do medo – para quem não sabe, mudou-se do Rio de Janeiro, como se fosse possível se mudar de sua própria história. No momento em que a vítima procurou a polícia, condenou a si mesma.

O que me lembra: não importa quem diz “não”. Não importa se é virgem ou mãe. Não importa se é santa ou prostituta. “Não”, é não, sempre. Negativa. E um ser humano tem o direito de se negar. Sempre. Forçar “relações carnais” com alguém, seja quem for, prostituta, virgem, santa, mãe, é estupro.Estupro é estupro, sempre. Uma noção meio difícil de entrar na cabeça de algumas pessoas, mas assim mesmo, verdadeira.

Mas, como diria o refrão daquela magnífica composição do Chico Buarque, “joga pedra na Geni” (o que não começou ainda, porque o crime parece bárbaro o suficiente para nos conter. Talvez). A diferença é que a Geni da canção era de uma generosidade sem tamanho – fictícia, mesmo – e nós somos apenas pessoas reais, de carne e osso, com uma história para viver, muito além do último acorde de uma canção. E com muito medo de um dia ser inquirida e julgada por não morrer dizendo “não”.

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