A ardência

ironia

Soube pelo Facebook, daí a dificuldade em acreditar, logo de saída: botaram fogo nos pertences de um morador de rua que ocupava certa esquina de Hamburgo Velho.

Bom, este é um recorrido das minhas caminhadas matinais. Eu passava lá quase todos os dias, e já tinha o homem na minha memória urbana. Suas coisas também: sempre muito organizadas, sem nenhum cheiro ruim, ali na porta da antiga sorveteria Olá, Marcanã. Ele nunca me incomodou, eu nunca incomodei ele. Mas, pelo visto, algumas pessoas, sim, se sentiam incomodas com a sua presença, tanto que puseram fogo em seus cobertores, talvez na tentativa de espantá-lo dali, como se fosse um cachorro ou outro bicho de rua. Ainda bem que ele não estava debaixo das cobertas ralas, ou a notícia poderia ser mais trágica.

A comunidade do bairro se mobilizou. Pior do que um morador de rua zanzando pelas ruas históricas de Novo Hamburgo é a opinião pública negativa. Surgiram doações de roupas e cobertores para suprir o que foi estragado. O que sumiu, depois de alguns dias, foi o próprio morador. Nunca mais o vi por lá, nem mesmo à noite, quando o iluminava com os faróis do carro, ao subir a Maurício Cardoso. Quero crer que ele foi encaminhado a um albergue onde poderá passar as noites ao abrigo desse frio polar que nos têm enregelados.

Então, esta semana, ao passar pelo umbral vazio, me deparei com isso: a ironia. Maldosa, manhosa, ferina ironia:

Colocaram lá no umbral onde dormia o morador de rua, abrigado em cobertores, sobre a calçada fria, colocaram lá, no começo da gélida semana que se anunciava, uma embalagem de aquecedor.

Uma embalagem. O aquecedor que eu sei ser de boa qualidade, capaz de quebrar o frio e garantir a sobrevivência, este deve ter sido instalado devidamente em uma casa com boas paredes, telhado, cama, tapete, cortina e tudo o mais que faz do inverno aquela estação que tantos amam. Na esquina ficou apenas o papelão colorido. Como uma navalha escavando uma ferida meio coberta. Como que esfregando o que uma pessoa com “posses” pode, sobre outra que não tem e não pode.

É nessas horas que a condição de classe média me dói. O seu humor negro e perverso. A ardência que nos consome é moral. Todo o demais que os assola, é pura consequência.

Anúncios

Um comentário sobre “A ardência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s