O Rancho

por de sol
Por 51 boas razões, repito o conto para vocês. A primeira, é porque ontem foi Dia dos Namorados. As cinquenta, pelas vítimas do atentado em Orlando.
Sentou no banco ao lado da porta do rancho, sentindo o corpo pesado. Já entardecia. O céu, além das coxilhas sombrias era um esplendor de dourados e rosas, e carmim, e cinzas dos mais variados tons. No dia seguinte, chovia, com certeza, se disse Juca Silvestre, cevando o mate. Bonito é viver assim, de certezas.
É, não.
Tinha colecionado certezas, anos atrás. Aqui e ali, recolhera sonhos que, agora sabia, não eram seus, eram de outros. Anos atrás, inclusive, fora à guerra. Não que quisesse. Mas, taura novo, sem lugar de parada nem trabalho fixo, quando lhe chamaram para pegar em armas contra o inimigo, fora. Depois viera a certeza de que a lida da morte não era com ele. Nas lonjuras das andanças, conhecera um velho e a filha. Se engraçaram. China bonita, bem educada, fina flor. Morrera nos seus braços, de parto. De herança, sobraram só a terra e o rancho, nem o menino se salvara. Tinha três cruzes perto do umbu atrás da casa: a da chinoca, a do menino e a do velho, que de desgosto e bebida seguiu a filha pouco tempo depois. Ficou ele e as terras, o céu sem fim, as noites longas, os dias quentes. Deixou para lá os banhos de sanga e comia quando tinha fome, que era pouca. Emagreceu, fedeu, enfeiou.
Solidão é má companhia, sobretudo quando a vida não segue o trilho que lhe deram as certezas.
Dia desses apareceu um compadre do velho e a sua comitiva. João Mota, se chamava. Ficou triste de saber da morte do amigo e da afilhada e do menino, e fez careta quando chegou perto do Juca, barbudo, sujo e fedido. Mas em todo o caso, vinha pra negociar e quando caiu a noite e os peões se reuniram em torno da fogueira ao lado da casa, ele proseou entre um mate e outro, iluminado pelo único lampião da casa. Queria trazer seu gado para o campo que agora era do Silvestre, para por a vacaria à salvo das estripulias da gauchada sobrante da guerra, aquele contingente sem eira nem beira que vivia de contrabando e roubo de gado. As terras de Juca ficavam longe da zona de perigo, dizia o velho Mota. Se o Juca concordasse, trazia parte dos seus animais para que engordasse ali, antes de seguir viagem até Pelotas, para o fim de todo gado, que é ser tangido pelos outros, até a morte. Pagava-se bem.
O Juca concordou. Achou que ia ser bom ter umas vacas para ver da janela. Achou que o mugido ia ajudar a minimizar a quietude do campo e do rancho. Mas achou que ia ser muito bicho para ficar de olho sozinho.
“Não se preocupe, seu Juca, vou lhe deixar um ajutório”, prometeu Mota. No dia seguinte, partiram todos, risos, passo de cavalo, pó, tudo se perdendo atrás das coxilhas, se desfazendo como um sonho.
Dali um mês, apareceu um dos peões de confiança do Mota, mais dois homens que lhe ajudavam com o gado, e um rebanho de dar gosto de ver. Se cumprimentaram, se falaram, e depois de um dia, dois homens se foram e ficou um que se chamava Arcanjo Inocêncio, mas que se fazia chamar por Ceno, para facilitar as coisas, e porque achava que a mãe tinha se passado de beata quando o fizera batizar.
O Ceno tinha um violão. E uma voz bonita, que se Juca soubesse algo de música, diria ser de baixo barítono. Mas ele não sabia, só ouvia a voz grave e forte ecoando pelo espaço feito um trovão distante.
Ceno resolveu construir um telhado para ele. A princípio, era para ser longe, mas depois, como não havia opção naquele vazio de capim e pedra, e céu e nuvem, que é o pampa, ficou combinado que o sujeito ia fazer um puxado a partir da parede lateral do rancho. Aos poucos o quartinho foi tomando jeito, mui espaçoso, que Ceno tinha manias de gostar de se espreguiçar e esticar, logo ele que de pequeno não tinha nada: braço longo, peito largo, perna comprida, mãos capazes de deitar um touro de um soco, cabeça firme e bem feita sobre um pescoço forte e bronzeado. Tinha bigode, como tivera bigode o Juca antes de ser tomado pela barba grossa e mal cuidada, os cabelos longos por falta de barbeiro que os cortasse, embora de vez em quando tosasse a melena com a adaga afiada que levava sempre à cintura. O Ceno era o tipo de homem que quando entrava num bolicho arrebanhava os olhos do mulherio todos para si. E os suspiros. E os requebros. E os sorrisos. Gostava de prosear à tarde, tomando mate, e de fazer o parto das vacas, mesmo que elas estivessem lá no meio do campo. Ia dando nome para os bezerrinhos, nome doce, palavrão, o que lhe viesse à boca no momento. E ria forte quando estava feliz e, como Juca descobriu depois, ficava com o olho parado e distante, quando a ponta de gado era levada embora, mastigando um cigarro de palha apagado no canto da boca.
Esse era o Ceno, banho de sanga todo dia, brilho no olho, voz de vento.
Entrou no Juca uma vergonha de si. Se viu velho, feio e barbudo e isso que não se cheirava, que já tinha se acostumado ao seu budum. Depois, aos poucos, foi se aprumando: um dia água, no outro tosa, na outra semana tirou a barba e quase a metade da cara, com a falta de prática que estava. Mudou de roupa. Reencontrou a alegria de prosear com um ser humano, de ter uma voz que respondesse à sua. O prato voltou a encher-se e a fome dos que são felizes e tem a vida inteira pela frente, retornou como cusco fugido. Quando veio a hora de ir à vila comprar mantimentos para a próxima estação, estava que era gente, de novo. Ceno foi junto, e era bonito de ver os dois gaudérios passarem lado a lado, um grande feito um armário, taludo, forte, sorridente, o outro menor, de feição séria e firme, talho flexível sobre um cavalo arredio. Barba na cara, olho atrevido. Compras feitas, se esbaldaram no bolicho. Ceno cantou, Juca dançou com umas chinas. Jogaram, Juca ganhou; Ceno perdeu. Deitaram carreira, Juca perdeu, Ceno ganhou. De légua e luz.
Na volta já era tarde. O corpo vinha moído e remoía o Juca um remorso por ter sido feliz. Remoía e remoía – mas não abdicava.
Foi quando chegaram no rancho. Não soube bem como, talvez ainda tivesse um pouco de pinga na cabeça. A coisa foi que as bocas se buscaram, e a pele arrepiou feito quando era guri e deitou pela primeira vez com uma mulher. As mãos, os braços, a força. O querer, o ganhar, o entregar. Delírio e gozo. Surpresa. Os cavalos amanheceram encilhados, cochilando cansados junto à porta aberta do rancho.
Juca despertou num susto e desvencilhou-se do abraço. Se afastou num soluço, fugiu nu para o campo aberto. Correu até lhe faltarem as pernas e aí berrou medo, berrou vergonha, e tudo mais que lhe restava, até chegar ao desejo. Ofegou. Pensou em matar. Pensou em se matar. Matava primeiro, se matava depois. Qualquer coisa para não sentir de novo o que sentira e as certezas dos outros tinham lhe dito a vida inteira que era errado, que era mentira, que era pecado, que era contra a Natureza. Chorou. Sentou. Tremeu. Correu até os cavalos, pegou a adaga que tinha ficado caída no chão. Entrou na casa. Soluçava baixinho. Arcanjo Inocêncio dormia de bruços no pelego que forrava o catre que chamava de cama, abandonado e frágil como um menino. Até sorria um pouco. A mão de Juca tremeu. “Vou matar”, pensou Juca. “Vou matar, vou matar”.
A adaga era pesada demais para uma manhã leve e doce, sol entrando de mansinho pelas frestas do telhado, desenhando uma linha quente sobre a pele dourada do outro. Se matasse, pensou, nunca mais veria Ceno, nunca mais ouviria sua voz. Nunca mais teus lábios, homem, o que foi isso, nós, ontem, dois tauras feitos para o confronto – talvez –, para a lida – dizem– , para a festa – de certo!, fomos festa, tu e eu, eu, eu fui festa, como, meu Deusdocéu? Caiu a adaga ao lado do amante e correu Juca para o cavalo, ainda querendo morrer, já que matar não era lida sua, mesmo que não. Arrancou os arreios do bicho que recuou meio espavorido daquele choro, daquele Cristomeuacuda, e foi até o umbu, onde se erguiam sem perguntas e sem respostas as cruzes dos finados. Subiu num galho grosso e alto, preparou o laço, pôs nele o pescoço. Agora era só pular e deixar a forca fazer o resto. “Pula, Juca!” disse a si mesmo, “pula, desgraçado, pula de uma vez”.
– Faz isso, não, Juca.
Ele levantou os olhos para a voz de trovoada. Ceno, parado na esquina do rancho, só o chiripá, no resto não levava nada. Na voz um terror, uma tristeza, um cansaço de quem já viu isso tantas, e tantas, e tantas, e tantas vezes na vida.
– Olha, eu vou embora. Diz pro seu Mota que me fui com um bando de castelhano, que não sou de confiança. Não importa. Não faz mal. Só diz isso. Toma um porre, corre umas chinas, barranqueia umas éguas e pronto, me esqueceu. Vai parecer que fui um sonho ruim que tu teve. Pensa assim: Ceno foi um pesadelo. Pronto, acabou.
E a voz de trovoada se quebrou um pouco quando foi adiante.
– Só não pula, Juca. Me degola, se isso vai te servir de consolo. Não me importo. Só não pula, porque se o mundo não tiver mais teus olhos de noite e meia, eu te juro, mano, não me vale nada respirar.
E ficou ali o Juca, nu, encarapitado no galho, com uma forca no pescoço, olhando Arcádio Inocêncio que olhava para ele, ainda mais nu, porque não escondia nem quem era, nem o que sentia.
O tempo passa, se faz anos, e a gente vive. Mas não por onde as certezas dos outros. Viver, vive só o homem que caminha pelo seu trilho nos caminhos do Mundo, caminhos que são muitos, a maioria feita dos sonhos dos outros, das vontades e das vergonhas alheias, e não os da gente.
O batuque dos cascos avisa: aí vem o cavaleiro. Chega alto, espaçoso, braço longo e peito largo, mãos fortes e cabeça firme num pescoço forte e bronzeado. Chega de bigode e melena cortada na semana passada, pela adaga afiada do companheiro. Chega sorriso, cansado, atrasado, suado e trazendo nos braços, na garupa mesma do baio, um terneirinho que acabou de nascer.
– Tem que trazer a Mocha! Ela tá perto da sanga. Ficou pra tomar água – anuncia passando o filhote às mãos do amante, que se levantou para pegar o bicho. Ceno desmonta da sela, pega o mate cheio, mete a boca na bomba quente e sorve com prazer o amargo travo do dia findo.
– Vê se põem mais água pra esquentar – recomenda Juca subindo no estribo que o outro à pouco deixou. – Vou buscar a Mocha.
E se foi, enquanto Arcanjo Inocêncio olhava para o bezerro meio trêmulo de susto por entrar naquela roda que chama Vida. O pequeno mugiu, agudo, frágil, exigente. Arcanjo riu alto.
– Vou te chamar “Bochincho” – decretou.
Viver é só pra quem tem coragem.
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