A dor

 

flor murch
Site Jardim da Terra

 

É difícil de falar. Tem um nó na minha garganta. Tristeza, é o que eu sinto.

Eu que sempre me emocionei às lágrimas com a abertura e o encerramento das Olimpíadas, eu que achava que seria uma honra para o meu país ter em seu território a chama que representa a paz entre os povos, independente de posições políticas.

Mas, não, eu não posso me sentir feliz.

Eu não sou totalmente ingênua. Sei que o esporte é uma grande indústria. Sei que as Olimpíadas são um grande evento e que, como todo grande evento, é um grande e desenfreado negócio. O mundo é capitalista, e é assim que as coisas são. Posso aceitar.

Não é isso o que me entristece.

O que me entristece é o não-limite. A incapacidade do meu país de pensar um pouco além, só isso: um pouco além. Um pouco além da cerimônia da tocha. Um pouco além da falta de ensino de qualidade. Um pouco além da corrupção, do “meu bolso”, do “jeitinho”. Me entristece a irresponsabilidade que se espalha pelo país como um cancro. Me entristece o “tudo pode”. O “não vai dar nada”. Me entristece que o país revele desse jeito porco, os últimos vinte anos cheios de boas intenções – vai ver, as mesmas que, dizem, atapetam o Inferno – e que terminaram nos trazendo a essa década de escárnio total à Vida. E não venham me dizer que não tem nada a ver com nada. Que matar uma onça não tem nada a ver com as filas da saúde pública. Que roubar milhões não tem nada a ver com o abuso sexual que se traduz em estatísticas. Que ignorar leis de trânsito não tem nada a ver com o assalto perpetrado por menores. Tem sim. Tudo isso tem a ver com a forma como o Brasil tem pensado nos últimos vinte anos.

Porque por incrível que pareça, pensamos. Pensamos que vai dar tudo certo. Que o detento vai se regenerar milagrosamente. Que os doentes encontrarão uma vaga emergencial. Que os alunos recuperarão conhecimento fora da sala de aula, como mágica. Que a comida, ainda que pouca, será o bastante. Que verão quente e inverno frio se resolve com ar-condicionado, crença suprema da classe média. Que a loteria vai cair para a gente. Que a gente vai precisar apenas acreditar para ser feliz. Que não faz tanta falta trabalho honesto, estudo sério, investimento escrupuloso, porque isso é coisa dos outros países, os que são os Outros, os que não são felizes, os que não sambam, não vão à praia e não gostam de Carnaval. Nós estamos deitados em berço esplêndido, ao som do céu profundo. Deus tem passaporte brasileiro. Ele fará justiça. Nós só teremos de assistir e aplaudir, porque a Justiça Divina sempre é feita aos outros – nós seremos salvos pela nossa fé.

Que tristeza ver um país que era o do futuro, desperdiçando o cotidiano ao Deus-dará. Nossa vida escorre como o sangue da onça empando o chão de cimento. Fomos nós os que puxamos o gatilho – somos nós os que agonizamos. O grande país que seria o Brasil, desfez-se em brumas.

Tenho vergonha do meu país, que abriu mão do que poderia ser, porque isso, simplesmente, dava muito trabalho.

Tristeza é o que eu sinto. Choro, não pela onça, coitada. Ainda sou egoísta. Choro por nós, brasileiros.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s