A passagem

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Caminhei entre as pessoas, ouvindo:

Um garoto corre para o amigo e comenta, com a voz vibrante: “Vi o cara correndo com o fogo! Muito legal!”

Uma mulher, no celular, com a voz de irônico enfado: “Vou t13615242_1136093903117525_6615479441440577621_ne contar: vim até aqui para quê? Para ver um foguinho entre um caminho e um ônibus. Vê se pode.”

Duas meninas, uma para a outra: “Que legal!”.

Uma amiga me pediu: “Me manda a foto do cadeirante que levou a tocha? Minha filha é fã dele” (nota: a menina em questão não é paraplégica e é bailarina).

Gente reclamando do trânsito trancado, do dinheiro gasto com a passagem da tocha. Gente com uma bandeira do Brasil, gente tomando chimarrão, gente comentando, ainda, o Gre-Nal. Gente que fazia festa e os que não diziam nada, só olhavam. Uma pequena multidão. Todos lá, os que reclamavam, os que achavam bom. Todos esperando. Sorrisos. Acenos. Celulares.
13653404_1136093729784209_5372840078732509126_oEu também fui.
Fui ver passar o fogo olímpico, que para mim é uma das poucas, muito poucas, coisas sagradas para a espécie humana. Não fui para ver uma haste que vale quase dois mil reais, nem os patrocinadores, nem a polícia, ou as ambulâncias (bom momento para o poder público desfilar suas forças de maneira positiva). Fui para ver uma chama alimentada por gás. Uma chama. Fogo. Algo prosaico e atávico, algo antigo como o homem.

Antigo por demais. Por isso fui.

Aqui, neste país, a chama custou a vida de uma onça. É um símbolo, claro, símbolo dentro do símbolo: o fogo é um símbolo, ainda que real; a onça morta é outro, ainda que, também, real. A onça morreu, como morrem milhares à custa da saúde pública precária, das estradas em petição de miséria, da segurança quase inexistente de nossas ruas, e o dinheiro gasto com a realização dos jogos que celebram a Paz poderia ter ajudado a salvar essas vidas. Fui, porque esse fogo, sagrado, está cumprindo sua função com exatidão: simbolizando nossos melhores anseios pela Paz entre os homens, têm escancarado nossas piores mazelas. E isso dói.13567499_1136093949784187_6701545735109019561_n

Mas ela também escancara nossa fé; nossa esperança; nossa força. Era um foguinho, como disse a mulher zangada no telefone. Uma chaminha de quase nada. Mas moveu gente, como a senhora que me confessou, no final do recorrido, ter subido o “morro” de Hamburgo Velho ao perceber que o comboio já tinha passado. E mesmo sendo contra a passagem da chama em Novo Hamburgo subiu o morro, subiu depressa, ficou ofegante, e me encarava sorrindo, enquanto concluía que se fizesse isso todos os dias, talvez emagrecesse de fato. E com certeza melhoria a sua saúde, mas isso eu preferi calar.

Guardei dessa manhã estranha, iluminada por um sol de cinema, imagens como a do Paulo, o vendedor de pão de queijo que correu ao lado da porta aberta de um dos micro-ônibus do comboio, vendendo seu produto, misto de atleta com preparo de pedestre comum, e herói sem consciência de sê-lo. O Paulo ficou sem fôlego, no final do curto trajeto, mas por um momento eu achei que ele era o carregador da tocha, achei que ele 13620291_1136093779784204_4760395325640039774_nfosse o maratonista da final dos jogos, achei que ele fosse um profissional dos esportes.
Nada disso. O esporte do Paulo é carregar bandeja de pão de queijo. A maratona do Paulo é o trajeto que ele faz todos os dias, pelas sinaleiras e esquinas. A tocha que o Paulo leva, leva sempre, mas não se vê: é o sonho de que o amanhã será melhor.

O amanhã. Aquele que nasce com o Sol. O mesmo Sol que, há alguns meses, acendeu a tocha olímpica, na distante Olímpia. A mesma que eu vi passar, com o coração batendo forte.

Sim, eu fui ver a tocha olímpica passar. Por que fiz isso, apesar de todas as mazelas do meu país?

Não tenho uma resposta para isso. Talvez apenas por ser humana. Porque gosto de ver o sol brilhar nos olhos das crianças, enquanto um sonho se acende neles. Vai ver que foi por isso.

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