Um pouco de poesia

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Fui à festa dos 110 anos de Mário Quintana, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, com o meu Guarda-Verso, a sombrinha com poesias penduradas, que inventei de fazer este ano. Da primeira vez que a usei, em outro evento, levei barquinhos. Agora foram borboletas. Pequenos origamis coloridos, nos quais escrevo algum dos meus versos que, faço de conta, são para ser poesia. Chego e ofereço para as pessoas: “quer uma poesia? Ou um verso?” A maioria pega, os outros agradecem e não o fazem. Mas todo mundo olha com um sorriso e isso é muito bom.

É uma forma de fazer poesia, bem melhor do que aquela que eu escrevo, eu acho.

Bem, ontem fui surpreendida pela Realidade, essa eterna caixa de surpresas.

Ofereci uma borboleta com poesia para uma mulher e ela sorriu. Os olhos brilharam. Oh, sim, ela queria uma borboletinha, queria mesmo. Mas… “quanto custa?”

“Ora, nada”, respondi, pensando que era uma dessas exceções que confirmam a regra. Parti para outra e outra mais. Dali a pouco, mais uma vez: “quanto custa?” Estranhei. Opa, aqui há algo que não vejo, não ouço, ou não quero ver nem ouvir. Lá pelas tantas, a Realidade, na boca de outra mulher, me perguntou: “e o que eu preciso dar em troca?”

Um sorriso, pensei. Água para os sedentos. Comida para os famintos. Escola para todos, saúde. O Sol, a Lua, uma estrela (andei lendo “O Pequeno Príncipe” essa semana que passou). A alma, a vida. O que se dá em troca daquilo que não tem preço? Como quantificar uma palavra que faça pensar, que abra um sorriso, que ilumine uma tarde? Como colocar preço em algo que nos torna humanos?

Quando as borboletas acabaram, fiquei pensando naqueles “quanto custa?”. Nessa maldição da nossa civilização que põe preço em tudo, e um preço em forma de dinheiro e como isso é frio e impessoal, e em como é fácil pagar por algo. E em como, ao pagar por algo, a gente acha que virou dono, quando não é nada disso, não somos donos de nada a não ser de nós mesmos.

A Realidade é uma caixa de surpresas, e às vezes essas surpresas escondem uma amargura sem tamanho. Bom saber que está em nossas mãos fazer magia de vez em quando, fazer poesia. Podem me chamar de presunçosa, mas quando aquele menino na cadeira de rodas estendeu os braços para mim, eu soube que não estava brincando: a magia existe. Ela está em nós. E é tão cara que não dá para cobrar por ela.

Chama-se felicidade.

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