Plenitude

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Sento diante da TV e assisto às Paraolimpíadas. Fico olhando, um misto de ternura, orgulho e vergonha de mim mesma. E penso: o que é um ser humano? O que é a perfeição? Cinco sentidos? Quatro membros? Olho para aqueles corpos aos quais a vida ou o destino deu uma forma diversa da minha, olho para aqueles corpos que não me veriam, sequer se eu estivesse diante deles.

Não dá para negar, ser um ser humano é algo que vai além do que nós convencionamos chamar de “normal”. Não é ter cinco dedos em cada mão e pé, não é ter dois braços e duas pernas, não é ver ou ouvir. Ser um ser humano é outra coisa. O nome disso é “corpo”, o mecanismo de que nos apropriamos em algum momento da existência para interagir com a realidade. “Normalidade” é uma referência que usamos para definir o que não tem definição. A “normalidade” é uma generalização e como toda a generalização, nivela por baixo. Ser um ser humano é algo que está muito mais ligado à vontade, à capacidade de reinventar tudo: movimento, ação, corpo, desafio, completude. Ser um ser humano é algo que vai por dentro – por dentro do corpo, por dentro da mente, por dentro da alma, se alma houver. Não à toa se equipara a existência a uma batalha, uma guerra contra o tempo, contra a dor e a finitude da matéria orgânica. Vendo esses corpos que em outros dias eu teria achado incompletos, vejo mais do que músculos e tendões em ação. Vejo obstinação. A capacidade de avançar até o limite. De acariciá-lo com doçura. De superá-lo sem piedade.

Vendo esses atletas, esses homens e mulheres, que a minha ótica superada tendia a encarar com pena, percebo o quanto de limitada e deficiente sou eu que só sei enxergar a superfície, o óbvio, o que eu conheço. Ver corações nunca foi o meu forte.

Grande é a alegria dessa gente que ousa viver. Assim de simples, assim de claro. Que meu sorriso aprenda a refletir esses sorrisos, que eu seja capaz de cultivar a sua força – essa mesma que, ardendo dentro de cada um, me ensina que para a Natureza não há uma perfeição. Há perfeições. Infinitas perfeições ao alcance de todos nós.

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